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Encontro debate participação das OSCs no campo de negócios de impacto

No dia 19 de setembro, a Rede Temática de Negócios de Impacto Social do GIFE realizou, em São Paulo, mais um encontro de representantes de fundações e institutos para debater os caminhos que organizações da sociedade civil (OSC) e governos estão traçando para incorporar práticas e perspectivas trazidas pelos negócios de impacto social.

A agenda do encontro incluiu a apresentação da professora Graziella Comini, coordenadora do Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor da Universidade de São Paulo (CEATS), sobre os resultados da pesquisa Lições da prática: reflexões sobre os elos entre OSC e negócios de impacto socioambientais”, promovida pelo CEATS, em parceria com o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e a Ashoka. Três gestores participaram do encontro e puderam compartilhar suas experiências e aprendizados à frente de OSCs que já começaram a experimentar a trajetória de mercado e de negócios de impacto social.

Eduardo H. de Azevedo, da Secretaria de Inovação do Governo do Estado, também participou do encontro como convidado da Rede Temática para apresentar o Pitch Gov.SP, iniciativa do governo do Estado de São Paulo, que visa identificar startups interessadas em apresentar soluções para diversas demandas da sociedade e que está à disposição dos empreendedores de negócios de impacto.

 

A relação entre OSCs e negócios de impacto

O objetivo do projeto “Lições da Prática” era entender a relação entre Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e negócios de impacto. Para tanto, a equipe coordenada pelas professoras da FEA USP, Rosa Maria Fischer e Graziella Comini, levantou cerca de 50 lideranças de OSCs que já tinham implementado algum tipo de experiência de geração de receita.

Desse grupo, foram selecionados 12 líderes de organizações de diferentes segmentos socioambientais para participar de entrevistas. Em seguida, foi promovido um workshop, com 25 lideranças de cinco estados, para sistematizar os “elos” ou conexões com o universo dos negócios de impacto. Por fim, os resultados foram apresentados em um webinar com 11 empreendedores sociais e gestores de OSC.

“Entre as lições aprendidas, a primeira é de que há uma abertura real por parte das OSC para pensar em iniciativas de mercado, vendo essa como mais uma possibilidade de gerar renda para atingir a sua missão. E essa abertura se dá em diferentes formas, com uma diversidade de modelos e formatos. Eles não são excludentes e nenhum deles é o ideal. Cada organização deve analisar e definir o que é ideal a partir da sua realidade”, destacou Graziella.

Prestação de serviços e criação de uma unidade de negócios ou de uma empresa são os formatos existentes e identificados no levantamento. Há também OSCs que passaram pela transformação do seu modelo de atuação.

 O formato de prestação de serviços acontece quando a OSC tem uma determinada expertise e passa a oferecer consultoria. É o caso do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE), uma organização sem fins lucrativos criada com o objetivo de promover a conservação da biodiversidade por meio de pesquisa, educação e envolvimento comunitário. Em 2012, o Instituto elaborou um estudo para a empresa Danone com o objetivo de avaliar sua dependência e o impacto de suas atividades nos serviços ecossistêmicos ao longo de sua cadeia de valor.

 Já a unidade de negócios ocorre quando a prestação de serviço passa a ficar frequente e a OSC decide ter uma postura mais proativa, em busca de clientes para poder oferecer produtos e serviços. Esse foi o caso da Gastromotiva, que surgiu como uma organização voltada à inclusão social. Com a necessidade de criar um espaço de aprendizado prático para os alunos, bem como de fomento de propostas inovadoras para aproveitamento integral dos alimentos, foi criado um refeitório/restaurante, que oferece alimentação de qualidade à população vulnerável do Rio de Janeiro a partir de sobras de restaurantes/supermercados. A geração de receita advém da oferta de almoços para executivos e eventos corporativos.

A pesquisa identificou também a possibilidade de criação de uma empresa, que diferentemente de uma unidade de negócio, tem maior autonomia e liberdade para definição de estratégias de atuação. Neste caso, o superávit da empresa é canalizado para as atividades da organização.

A pesquisa mostrou que alguns fatores impulsionam as OSCs a incorporarem iniciativas de mercado. Entre as principais motivações está a dificuldade na captação de recursos, principalmente após a crise internacional de 2008 e os compromissos de financiamento pelo mesmo doador por um período curto, de no máximo três anos. Além disso, há também uma demanda de alguns potenciais clientes que passam a solicitar às OSCs a prestação de serviços, assim como o contato mais próximo com este campo de negócios de impacto a partir da participação das OSCs em eventos, fóruns e workshops sobre este tema.

Em relação às motivações internas, foi identificado um movimento das equipes em refletir sobre a necessidade de revisão de modelo de atuação, assim como a consciência sobre as competências organizacionais que podem ser melhor exploradas e colocadas à serviço de novas atividades na sociedade, garantindo a ampliação, inclusive, do impacto.

“Os desafios, porém, não são poucos. Percebemos que há ainda uma resistência do mercado para remunerar a prestação de serviços das OSCs a preços competitivos, assim como a dificuldade de algumas empresas não vislumbrarem as organizações como potenciais consultores. Outro fator é que há muitos financiamentos sendo direcionados a startups. Para testar modelos inovadores as OSCs precisam de capital semente e o que está disponível ainda é insuficiente”, explicou Graziella.

As organizações apontaram ainda a falta de compreensão das terminologias do ambiente de negócio e a necessidade de se ampliar a noção do planejamento. E alguns desafios culturais internos, como a preocupação do negócio desviar a missão da OSC e o perfil dos funcionários, com pouco conhecimento do ambiente do mercado.

De acordo com a coordenadora do CEATS, o processo da pesquisa identificou aprendizados de quem já passou por essa jornada. Entre eles estão:

  • a importância de trabalhar em rede, identificando outras OSCs que podem juntas desenvolver iniciativas e serem mais fortalecidas;
  • as lideranças conseguirem extrapolar outras formas e entenderem melhor as oportunidades externas;
  • balancear na organização os funcionários com diferentes perfis;
  • definir objetivos e acompanhar resultados continuamente para que não haja risco de desvio de missão.

Entre as principais reflexões, a pesquisa destacou:

  • a necessidade de que as iniciativas de mercado adotadas estejam a serviço da missão da OSC;
  • que o portfólio de produtos e serviços esteja alinhado ao propósito maior da organização. Caso contrário, só a venda representará muito pouco no orçamento da entidade;
  • é essencial também avaliar as oportunidades vindas de políticas governamentais, regulamentações setoriais. Fazer conexões com a Política Nacional de Resíduos, cotas para deficientes, etc;
  • construir pontes, ter um elo entre as duas lógicas – o social inclusivo e o mercado competitivo.

“O aprendizado e essa interação entre o social inclusivo e o mercado competitivo têm que ser mútuos. A ideia é que quem já entrou no percurso social, possa também contaminar quem está no mercado e na troca poder estabelecer outras bases”, ponderou a coordenadora do CEATS.

 

Práticas

Além de relatarem a trajetória de suas organizações, os gestores convidados – Felipe Bannitz, do Instituto de Socioeconomia Solidária (ISES); Dra. Vera Cordeiro, da Associação Saúde Criança (ASC); e Katya Delfino, coordenadora de assuntos corporativos, e Henrique Heder, coordenador dos Núcleos Empreendedores do Projeto Arrastão – participaram de dinâmicas com os presentes para discutir como institutos e fundações poderiam ajudar a construir elos entre OSCs e negócios de impacto.

Instituto de Socioeconomia Solidária (ISES) é um exemplo de OSC que transformou seu modelo de atuação. O Instituto foi fundado em 2004 com o objetivo de implementar projetos de extensão universitária voltados para erradicação da pobreza, a partir do fomento de negócios de base comunitária na periferia paulistana.

Felipe Bannitz, presidente do Instituto, contou que, nesta época, a organização levantava demandas sociais, criava projetos e buscava apoiadores. “Aos poucos, começamos a entender que esse era um modelo de sustentabilidade muito frágil, que ficava suscetível demais às mudanças de diretrizes de financiadores, às crises etc. A equipe decidiu então mudar a lógica de atuação e transformar o seu conhecimento, tecnologias criadas e expertise em um portfólio de serviços. Hoje o ISES tem como foco de atuação a estruturação de estratégias de investimento social público e privado, bem como facilitar o relacionamento com as comunidades do entorno de cada parceiro ou cliente. Ele é um provedor de soluções socioambientais, ou seja, passou a ter uma lógica de ação B2B”, explica Felipe.

Fundada em 1991, pela dra. Vera Cordeiro, a Associação Saúde Criança (ASC), tem buscado novas formas de compor seu orçamento, valorizando todo o conhecimento e a metodologia social criada e testada ao longo dos 26 anos de atuação. “Após conviver como médica, em um hospital público no Rio de Janeiro, com centenas de crianças reféns de um círculo vicioso de miséria, doença, internações e morte, entendi que o nosso trabalho no hospital tinha seus limites. Criamos uma organização que trabalha com a família, sob o ponto de vista biopsicossocial, não para substituir o Estado, mas para complementar o ato médico dando maior sentido às suas ações. Para quebrar esse círculo vicioso, o Saúde Criança mudou na prática o paradigma da saúde, executando junto às famílias intervenções mais abrangentes, integradas em cinco áreas: saúde, educação, renda, cidadania e moradia, promovendo assim o desenvolvimento humano”, contou Vera Cordeiro, fundadora e presidente do Conselho de Administração da ASC.

Hoje, a organização atua em várias frentes, com atendimento às famílias, prestando consultorias para empresas e governos, realizando seminários, workshops, e criando aplicativos que possam aumentar o impacto do que faz. A ASC conta também com um modelo de licenciamento, em que várias outras organizações pelo Brasil utilizam a sua metodologia.

Para o Projeto Arrastão, localizado na zona Sul de São Paulo, o tema “empreendedorismo” se entrelaça com a própria história da instituição, tendo em vista que a geração de renda sempre foi um fator muito relevante para as famílias atendidas. Durante muitos anos, porém, esse assunto esteve diretamente ligado apenas aos projetos e não ao modelo de financiamento da própria organização.

Há três anos, o Arrastão foi convidado pela Fundação Telefônica Vivo a desenvolver uma metodologia de empreendedorismo, inovação e impacto social com jovens. Esse movimento fez com que a organização fizesse mudanças no seu modelo de gestão. “Fizemos vários pilotos, sistematizamos a metodologia, e estamos agora ensaiando para vender essa expertise. Ou seja, temos o conhecimento e podemos colocá-lo também como possibilidade de geração de renda para a organização”, comentaram Katya Delfino, coordenadora de assuntos corporativos, e Henrique Heder, coordenador dos Núcleos Empreendedores.

 

Políticas públicas

O Pitch Gov.SP é um programa do governo do Estado de São Paulo, que visa identificar startups interessadas em apresentar soluções para diversas demandas da sociedade. “Com o programa, o governo busca entender as novas soluções que surgem no âmbito da sociedade e como poderia trazê-las para os seus processos, a fim de melhorar os serviços. Ao mesmo tempo, temos uma série de startups querendo validar suas soluções e alcançar escala com impacto positivo”, destacou Eduardo H. de Azevedo, da Secretaria de Inovação do Governo do Estado.

Em 2015, a primeira edição do programa lançou 35 desafios nas áreas de Educação, Saúde e Facilidades ao cidadão apresentados pelas secretarias e órgãos de governo. Na ocasião, 304 startups apresentaram soluções – sendo 181 válidas – e, ao final, nove empresas testaram seus produtos em até 20 meses em parceira com o governo, implementando suas propostas para melhorar os serviços públicos e facilitar a vida dos cidadãos. Entre as startups selecionadas, destacam-se a Nama, sistema de atendimento virtual para agendamento de serviços no Poupatempo, e o ClassApp, ferramenta de agenda utilizada no Centro Paula Souza para interação entre alunos, professores e famílias.

“Há uma grande oportunidade para os investidores sociais apoiarem estes negócios na segunda fase dos testes, por exemplo, tendo em vista que muitos não têm possibilidade de arcar com os custos até o lançamento da licitação. Essas soluções precisam de recursos para que possam continuar e passar por este período que chamamos de ‘vale da morte’”, comenta.

Segundo Eduardo, o momento atual é de definição e criação de licitação para contratação destas startups, algo novo no governo. A segunda edição da chamada já foi lançada e está com inscrições abertas até o dia 15 de outubro. Serão selecionados 16 startups que apresentem soluções em oito áreas de atuação, alinhados a 42 desafios (clique aqui e conheça). Entre os critérios de seleção estão: maturidade da empresa (faturamento anual e investimentos recebidos); modelo de negócios (viabilidade técnica, capacidade de escalonamento e modelo de monetização); equipe (experiência profissional e acadêmica, além de complementaridade técnica e diversidade de gênero); compatibilidade com o desafio proposto, inovação e singularidade da proposta e benefícios esperados.

 



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial