BID e ICE: parceria colaborativa | Entrevista – Henrique Martins de Araújo

Na visão de Henrique Martins de Araújo, especialista sênior do BID-FUMIN, a expansão do setor de finanças sociais e negócios de impacto tem pela frente o desafio de atrair e mobilizar mais capital – o que só vai acontecer se o provedor de capital entender a proposta de valor –, ao mesmo tempo em que é necessário que o empreendedor social se mostre capaz de levar seu impacto à escala de maneira sustentável. Na entrevista a seguir, Araújo destaca o forte alinhamento do trabalho que o ICE vem desenvolvendo nos últimos anos com os objetivos que o BID busca alcançar no Brasil, e como a nova parceria vai funcionar.

O que essa parceria representa para o BID e como a atuação do ICE está inserida na estratégia institucional do banco?
O BID tem como estratégia aumentar a produtividade e diminuir as desigualdades socioeconômicas dos países da América Latina e do Caribe de maneira sustentável para que se tornem nações mais inclusivas e prósperas. Para atingir esse objetivo, buscamos trabalhar de maneira colaborativa com os setores público, privado, organizações da sociedade civil, multilaterais e doadores institucionais. O trabalho que o ICE vem desenvolvendo ao longo dos últimos anos tem um forte alinhamento com os objetivos que o BID busca alcançar no Brasil.

Como a parceria será operacionalizada? Haverá aporte técnico?
Esta parceria será operacionalizada pelo Fundo Multilateral de Investimento, o FUMIN – braço de inovação do Grupo BID – com o ICE e outros atores através de três pilares. O primeiro é o apoio à Força Tarefa de Finanças Sociais do Brasil, não somente financeiro, mas também colocando à disposição todo o conhecimento e rede de contatos do BID para alavancar essa agenda no Brasil. O segundo pilar é o apoio ao Projeto Academia, que inclui apoio financeiro e a disponibilização dos especialistas do BID para o ICE e universidades parceiras para produção de conhecimento. O terceiro pilar é o mais relevante e complexo. Colocamos um fundo de US$ 1 milhão para os próximos 03 anos sob gestão do ICE, cujo objetivo é fornecer financiamento semente para negócios de impacto em estágio inicial. BID e ICE trabalharam juntos na estruturação do mecanismo e da governança desse fundo. No entanto, vale ressaltar que o recurso financeiro por si só não é suficiente. O principal desafio será montar uma estrutura de apoio aos negócios selecionados para que eles tenham sucesso em captações subsequentes e tenham melhor acesso a uma rede de investidores e parceiros.

Como o BID vê a expansão de negócios de impacto social no sentido de melhorar a qualidade de vida da população de baixa renda?
Temos dois desafios pela frente. O primeiro é trabalhar junto ao setor financeiro tradicional, incluindo bancos, gestores de fundos, investidores-anjo, para que entendam e adotem boas práticas de sustentabilidade em seus critérios de seleção. Avaliar simplesmente o retorno financeiro de seus investimentos não é mais suficiente, é preciso entender – e medir – o impacto social e ambiental. O segundo desafio é trabalhar com os empreendedores de impacto, capacitá-los, fazer com que adotem práticas comerciais e busquem crescer de maneira comercialmente viável e financeiramente sustentável. O ICE deve funcionar como ponte entre esses dois mundos. Ao conversar com provedores de capital, é preciso deixar claro que não se trata de filantropia ou subsídio, o objetivo é atrair capital adicional a negócios escaláveis que gerem impacto positivo para a sociedade e meio ambiente. A expansão do setor depende de termos sucesso em atrair e mobilizar mais capital para esse tipo de negócio, e isso só vai acontecer se o provedor de capital entender a proposta de valor, ao mesmo tempo que o empreendedor social se mostre capaz de levar seu impacto à escala de maneira sustentável.

Como os resultados serão mensurados?
O projeto possui diversos marcos quantitativos que serão acompanhados ao longo de sua vida. É esperado que pelo menos 100 mil beneficiários sejam impactados positivamente através dos 16 negócios financiados, e que esses negócios gerem pelo menos 80 novos empregos. Esperamos que 40 novas incubadoras e aceleradoras sejam capacitadas no tema de impacto e que os recursos oferecidos a negócios de impacto dobrem até 2020, o que representaria um aumento líquido de R$ 1,2 bilhão de recursos de investidores (anjos, venture capital, private equity) investidos em 40 novos negócios. Além disso, por meio do projeto Academia, esperamos que 4,5 mil alunos de graduação e pós-graduação sejam capacitados, e que parte desses alunos eventualmente decida focar sua carreira em negócios ou investimentos de impacto. São número modestos, mas que devem alavancar significativamente o crescimento do setor de finanças sociais no Brasil. O projeto acaba em 2020, mas o impacto deve continuar. Seria uma surpresa muito boa ver que no período de 10 anos, os negócios apoiados que conseguiram sobreviver tenham conseguido atingir alguns milhões de clientes.

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