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Academia discute o processo e importância da avaliação de impacto  

Com facilitação da Move Social, sessão foi realizada no último dia do Encontro Nacional da Rede do Programa Academia ICE.

A quarta edição do Encontro Nacional da Rede de Professores do Programa Academia ICE, realizada entre os dias 8 e 10 de maio, em São Paulo, contou com uma sessão especial sobre avaliação de impacto conduzida em parceria com a Move Social, que apoia organizações públicas e privadas na ampliação e qualificação dos impactos socioambientais de suas ações.

Na sala repleta de diferentes sotaques que compõem a Rede – do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Brasília, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Recife, Alagoas, Pará e Fortaleza -, Diogo Quitério, gestor de programas do ICE, abriu os trabalhos ressaltando a importância da mensuração do impacto para alavancar e legitimar o campo. “Se conseguirmos construir história e indicadores que comprovem que existe impacto no que estamos implementando, vamos conseguir apoiar a construção de políticas públicas e atrair mais empreendedores.”

Ele recordou que entre as 15 recomendações lançadas pela em 2015 pela Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, na época Força Tarefa de Finanças Sociais, há uma recomendação que versa justamente sobre a “promoção da cultura de avaliação entre empreendedores e investidores de impacto”.

“Uma das metas sugeridas dentro dessa recomendação é ter um centro de avaliação de impacto por estado. Nós partimos do pressuposto de que a academia tem um papel fundamental nisso. Então o objetivo é que vocês se sintam motivados a pilotar algumas avaliações com a gente e que, com o tempo, essa prática torne-se um processo institucionalizado na universidade onde atuam”, reforçou Diogo.

Como facilitadores da sessão, Antonio Ribeiro, sócio consultor da Move, e Max Gasparini, consultor da Move, tornaram a sessão um momento de reflexão e ação.

Impacto, resultados e perspectivas

Divididos em grupos, os docentes empreenderam uma jornada de debates em torno de três blocos de perguntas: 1. O que é avaliação de impacto?; 2. Quais passos e momentos fazem parte de uma avaliação de impacto?; e 3. Aos olhos do grupo, quais dessas etapas e passos parecem mais desafiadores e por que?

Na discussão promovida na sequência, Antonio da Move pontuou que o conceito de impacto está cada vez mais abrangente justamente pelo fato de os atores do ecossistema  assumirem que não existe uma unanimidade.

Como contribuição, apresentou um dos conceitos usados atualmente, oriundo doImpact Management Project (IMP), fórum criado para construir um consenso global sobre como medir e reportar impacto. Segundo a organização, impacto pode ser definido como um efeito significativo, positivo ou negativo, experimentado por pessoas ou pelo planeta.

Centenas de pessoas colaboraram com o IMP, que chegou à conclusão de que o impacto pode ser desmembrado em cinco dimensões: quais são os impactos, quem está sendo impactado, quanto esse alguém está sendo impactado, a contribuição do investidor para o impacto e quanto de risco está embutido neste impacto.

Max, por sua vez, ressaltou que impactos devem ser compreendidos como ultimate ou long term outcomes (em tradução livre, resultados de longo prazo), enquanto resultados do processo são os chamados short term ou intermediary outcomes (resultados intermediários ou de curto prazo).  

“Essa diferenciação vem de uma mudança de olhar e do entendimento de que o que queremos mudar ou transformar tem etapas. [Usar o termo correto] evita uma possível frustração tanto do financiador como do empreendedor, pois dessa forma não haverá o pensamento de que ‘fizemos uma intervenção que não gerou impacto’. Pode não ter gerado impacto, mas gerou resultado de short term. Em qualquer intervenção podemos ter a impressão de que nada aconteceu ou mudou, mas é sempre uma semente plantada”, afirmou o consultor.   

A dupla também abordou o fato de que o impacto, que pode ser visto como uma mudança desejada em última instância, é sempre algo com o que uma iniciativa colabora e quase nunca algo que consegue de fato realizar sozinha. Antonio exemplifica: “Uma iniciativa quer combater a desnutrição. A diminuição da mortalidade seria um impacto. Mas essa iniciativa vai conseguir diminuir a mortalidade sozinha sem apoio de outra ação?”, questionou.

A discussão, muito voltada para compreensão e esclarecimento sobre o uso mais apropriado de alguns conceitos, perpassou por grupos com diferentes perspectivas para pensar impacto. A perspectiva de território dá mais atenção para a abrangência do impacto em uma determinada escala, localidade ou região. A perspectiva temporal avalia os efeitos com o passar do tempo e a perenidade do impacto mesmo após a finalização da ação. Finalmente, a perspectiva metodológica dá ênfase ao rigor do método da avaliação. Segundo Max, cada perspectiva em si não pode configurar de antemão uma ‘escola de avaliação de impacto’. A intencionalidade de cada iniciativa de impacto, diretamente relacionada a sua teoria da mudança, é o que ajuda a compreender o que é impacto para aquele determinado negócio, projeto ou ação.

Avaliação como processo

Depois de trabalhar os diversos conceitos e dimensões que envolvem o conceito de impacto, a Move também reservou um tempo para falar sobre conceitos do campo de  avaliação – o hábito de conhecer (a partir de informações consistentes), julgar e tomar decisões a partir de critérios claros, justos e realistas.

Antonio e Max  exploraram com os professores as diferentes nomenclaturas que a avaliação pode ter ao longo de um percurso, enfatizando que não é sinônimo de mensuração. Do diagnóstico (para construção de uma imagem de determinada realidade antes de uma intervenção), passando pela avaliação formativa (durante o processo, o que ajuda a tomar decisões) até a avaliação somativa (depois da ação e com conclusões extraídas da experiência).

“A avaliação como abordagem para prestação de contas é algo legítimo e muito realizado. Mas o que se discute no campo é que a própria instalação de um processo avaliativo gera aprendizagem por ser uma revisão do que está sendo feito. Realizar avaliação exclusivamente para prestação de contas esvazia suas possibilidades”, alertaram os especialistas.

Na prática, expectativa de sucesso impede o aprendizado com os erros

Um dos pontos trazidos pelos professores foi a importância do reporte da avaliação ser transparente, em um movimento de ter coragem para comunicar  eventuais resultados negativos.

Nesse sentido, Mariana Brunelli, professora da a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), comentou sobre como a pressão para manter ou conquistar apoio e financiamento põe em risco os resultados da avaliação. “Minimizar ou omitir impactos negativos por medo de sofrer algum tipo de retaliação, não receber uma verba ou não ser aceito pela sociedade mostra que não consideramos um resultado não tão positivo como oportunidade de melhoria. Por isso, o Brasil ainda vive um processo de construção da cultura avaliativa.”

Segundo a professora , a figura do “herói”, alguém que não erra, precisa ser superada no Brasil. “Nós insistimos em buscar ‘salvadores da pátria’ e respostas simples para problemas que são complexos. É preciso assumir uma postura de ‘somos humanos e erramos’ e nos colocar no processo de aprendizagem, o que significa abrir espaço para o erro. Precisamos ter uma cultura de poder errar e experimentar”, explicou.

Neste cenário, o processo avaliativo se apresenta como uma ferramenta que ajuda a conectar as expectativas com o mundo real. “Usada para vários fins, a avaliação traz muita informação. É preciso definir sua intencionalidade, a qual propósito vai servir, porque trata-se de um processo caro. A avaliação pode trazer coisas muito positivas, inclusive quando apresenta resultados negativos”, refletiu Mariana.



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial