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As oportunidades para negócios de impacto na base da pirâmide

Uma das condições para a criação de negócios de impacto é o conhecimento do cotidiano das pessoas pertencentes às classes C,D e E.  O tema foi tratado em uma das sessões paralelas do Fórum, que discutiu sobre Negócios de Impacto criando oportunidades para a base da pirâmide, com moderação de Lina Useche, da Aliança Empreendedora, e participação de Heloisa Menezes, do Sebrae, Maurício de Almeida Prado, da Plano CDE, e Matheus Cardoso, da Moradigna.

 Maurício de Almeida Prado, diretor executivo da Plano CDE, especializada na produção de conhecimento sobre o comportamento das famílias das classes C, D e E, afirmou que dois em cada três brasileiros pertencem a essas classes, com renda até R$ 3 mil por mês.  Segundo dados do governo brasileiro, o país tem 50 milhões de pobres (com renda até R$ 1 mil mensais), 100 milhões de pessoas de classe média (com renda entre R$ 1 mil e R$ 4 mil mensais) e 41 milhões de classe alta.

Prado explica que a Plano CDE trabalha com dados oficiais IBGE (PNAD), pesquisas quantitativas e com etnografia. “Vamos na casa dessas famílias, com o objetivo de entender o seu contexto”, afirma ele, ou seja, para estudar educação, saúde, inclusão financeira, geração de renda/empreendedorismo, uso de tecnologia, consumo e lazer.  Isso porque muitos empreendedores, empresas e o terceiro setor têm dificuldade de entender as demandas reais dessas classes.

Há muitas oportunidades para os negócios de impacto na base da pirâmide. Bem direcionados, os negócios podem fazer com que empreendedores sociais ajudem a resolver problemas sistêmicos como a segregação socioespacial que existe nas cidades; a dificuldade de acesso aos serviços públicos e privados; o uso de tecnologia; a falta de novas soluções de mobilidade; e a precariedade das casas, que são muito importantes para essas famílias.

Grande parte das famílias de baixa renda mora em bairros periféricos, que se caracterizam pela baixa oferta de serviços públicos de qualidade, baixa oferta ou inexistência de serviços privados e baixa oferta de empregos. Essa realidade se repete tanto nas grandes cidades como nas cidades médias e convive com dois outros problemas: o alto custo do transporte e a violência. “Pior do que serviços públicos de baixa qualidade é a falta de serviços privados nesses bairros, onde há pouca oferta de cursos extracurriculares, poucas clínicas de saúde com preços populares e baixa oferta de empregos”, observa Prado.

Segundo dados da Plano CDE na área da educação, os mais pobres têm dificuldade em acessar cursos extracurriculares, pelo fato de não poderem pagar (64%) e pelos problemas de acesso (34%). “Eu não posso pagar o ônibus, não consigo chegar à escola”, “minha filha tem 11 anos, não posso deixar ela ir sozinha”, são algumas respostas.  O transporte para mãe e filha, duas vezes por semana, custa R$ 90 por mês, valor muito alto para essa faixa de renda.  Em outros casos, o obstáculo para acessar a escola é a violência, principalmente quando a escola fica em outro bairro e as meninas não podem ir sem acompanhante.  “Há uma questão de gênero aí”, diz Prado.

Na área do lazer, os bairros periféricos se caracterizam pela falta de opções. As pessoas não participam de atividades fora de casa por falta de dinheiro (27%), questões de violência e segurança (25%) e o que têm para fazer está longe de casa (22%).  Lazer é ir à casa de amigos, ver TV em casa, ir à igreja. O alto crescimento da TV por assinatura indica que o lazer dentro de casa é uma solução possível para essas famílias.

No que diz respeito à geração de renda, a periferia tem baixa oferta de emprego, o que estimula o aparecimento de micro e nano empreendedores. Nesse contexto, as mais prejudicadas são as mulheres, por causa da tripla jornada: cuidar dos filhos, da casa e do trabalho.

Cuidar da saúde nesses bairros significa investir tempo e gastos com o transporte. O tempo médio de espera para uma consulta do SUS é de 180 dias.  Os mais prejudicados são os trabalhadores por conta própria, porque o tempo parado diminui a renda.

A inclusão financeira também é dificultada pelo custo do transporte.  “Se coloco R$ 100 na poupança, vou ganhar centavos no fim do mês. Prefiro deixar em casa, não paga nem a condução”, disse um entrevistado.

O custo do transporte afeta também o consumo. Famílias pobres pagam mais caro pelos produtos de consumo devido à dificuldade de acesso. Solução encontrada é a união com vizinhos para compra no atacado, com divisão dos custos (gasolina) e uso do WhatsApp. Isso mudou o varejo em 2015, segundo Prado, já que 40% da classe C tem carro ou moto.

A internet ganha protagonismo nestas famílias, no lazer, informação, educação e comunicação.

Diante da falta de opções de serviços públicos e privados, da pressão da violência e do alto custo do transporte, as famílias da periferia passam muito tempo dentro de casa. Por isso mesmo, reformar e melhorar a casa é uma prioridade para essas famílias. Existe igualmente oportunidade de uso da tecnologia para facilitar acesso a lazer, educação, informação. As pessoas não estão cortando internet na crise, nem a TV por assinatura.

Crise muda o perfil do empreendedor no Brasil

Heloísa Menezes, do Sebrae, destacou que a exposição de Maurício Prado revela como a desigualdade cria uma série de oportunidades para empreender. Pesquisas mostram que o Brasil é um dos países mais empreendedores do mundo. O desejo de empreender supera o desejo de viajar, da casa própria, do automóvel e do emprego. Quase 90% desses empreendedores têm uma renda mensal de até seis salários mínimos e 45% deles não possuem segundo grau completo. Esses dados mostram o tamanho do desafio de entidades como o Sebrae, e outras, de criar incentivos ao empreendedorismo.

Para ela, a crise atual mudou o perfil do empreendedor e do empreendedor potencial no Brasil.Os empreendedores por oportunidade (não por necessidade) representavam 42% do total em 2012.  Em 2013 e 2014, esse percentual subiu para 71% e agora, em 2015, baixou para 53%. Trata-se de uma mudança significativa provavelmente causada pela crise econômica, pelo desemprego.

“A crise econômica atual coloca muitas oportunidades e desafios. O contexto da economia do compartilhamento, da acessibilidade e da conectividade pode dar as melhores respostas nesse momento, para além da crise em si”, afirmou Heloísa Menezes. Pode favorecer os negócios de impacto que permitem a acessibilidade da base da pirâmide a produtos e serviços que resolvam seus problemas. Ela também permite inovações de baixo custo, ao ajudar os pequenos empreendedores a fazerem inovações sem grandes investimentos. A economia do compartilhamento e a conectividade são uma grande oportunidade para esse empreendedor.

O Sebrae se encontra diante desse enorme desafio, que é o desafio do Brasil, da superação da pobreza, da redução dos impactos da desigualdade de renda, de apoiar estratégias para que esses empreendedores bem-sucedidos saiam da base da pirâmide e cresçam, bem como apoiar iniciativas que ofereçam produtos e serviços de impacto social e ambiental.

Existem outros desafios, em especial o da comunicação, porque ainda há um conjunto de preconceitos em relação aos negócios de impacto. Vejo ainda muita gente falar que “isso é um negócio de riquinho que quer se justificar na sociedade”, como também há as visões de que se trata de um nicho muito pequeno que, portanto, não deve ser objeto de tratamento diferenciado em termos de políticas públicas. Esse desafio é específico dos negócios de impacto, que enfrentam também todos os desafios dos novos empreendimentos: ambiente mais amigável para inovar, ambiente mais amigável para empreender e as dificuldades da regulação.

Moradigna, reformas habitacionais no Jd. Pantanal

“Existem 40 milhões pessoas morando em residências insalubres no Brasil”, diz Matheus Cardoso, empreendedor social na área de habitação, criador da Moradigna, empresa acelerada pela Yunus, especializada em reformas de habitações do Jardim Pantanal, em São Paulo, bairro que sempre enfrentou enchentes. Ele conta que a inspiração para criar a empresa surgiu numa dessas enchentes, quando ele, ainda criança, prometeu à mãe que iria lutar para superar essa adversidade.

Segundo Cardoso, grande parte dos moradores dessas residências tem muitos problemas: umidade e falta de ventilação que causam diversas doenças respiratórias, gambiarras, reformas infinitas, desperdício de mão de obra e material, e falta de dinheiro para finalizar a obra. A Moradigna oferece um combo, denominado Reforma Express, que inclui mão de obra, material, gestão da reforma que dura de três a seis dias e custa de R$ 3 mil a R$ 6 mil reais, com pagamento sem juros em até dez vezes.

A empresa conta com vários stakeholders, parceiros-chave “muito especiais”. Um deles é o Instituto Phi, que apóia o Moradigna em algumas reformas para pessoas que não têm condições de pagar. Os demais são empresas de materiais de construção, que oferecem melhores condições, entre elas o prazo de pagamento. “Outros parceiros importantes são o governo e mão de obra. Todos os pedreiros e ajudantes são do Jardim Pantanal, porque isso faz com que o dinheiro gire na comunidade”, revela Matheus.  O governo “ainda não sabe que é um parceiro”, mas é o responsável pelas políticas públicas no setor habitacional. Na visão do empreendedor, “o problema não é a construção de mais moradias, mas a manutenção das moradias existentes”.

A Moradigna tem ainda o Clube Vip, que é uma parceria com os fornecedores de materiais de construção e os pedreiros das obras para fazer uma capacitação de pessoas da comunidade na área de construção.

Os sócios da Moradigna são o próprio Matheus Cardoso, que é técnico em edificações e estudante de engenharia; Vivian Sória, arquiteta especialista em gerenciamento de empreendimentos; e Rafael Veiga, contador, especialista em inteligência de mercado e mestrando em Estratégia. No primeiro semestre de 2016, a empresa realizou 76 reformas (50 de interesse social e 26 reformas Express), no valor de R$ 280 mil, com 311 pessoas impactadas. Em 2020, a meta é chegar a 3.000 reformas com mais de 12.000 pessoas atendidas.

O plano de expansão da Moradigna prevê a consolidação da operação e o crescimento em bairros radiais de São Paulo (2017), unidade no Rio de Janeiro (2018) e unidades em Belo Horizonte e Salvador (2019 – 2020). O orçamento de investimentos, no valor de R$ 300 mil, será aplicado em capital de giro, nova unidade de negócios e na estrutura corporativa e organizacional.

Para o fundador da Moradigna, empreender significa saber potencializar os ativos que você tem para gerar algo que vai impactar a sociedade. “Não precisa de uma grande estrutura, ou um alto volume de recursos. Sabe o que eu tinha quando comecei o Moradigna? O cartão de crédito da minha irmã”. A gente quer e vai mudar a vida de 40 milhões de brasileiros”, afirma Matheus provocando a plateia.

 

 



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial