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Confira os principais destaques do Fórum Latino-Americano de Investimento de Impacto 2019

 

Tecnologia, equidade de gênero, Blended Finance e Fundos de Impacto foram alguns dos temas da edição deste ano.

Entre os dias 19 e 21 de fevereiro, o ICE participou de mais uma edição do Fórum Latino-Americano de Investimento de Impacto (FLII). Organizado pela New Ventures, o evento é considerado o mais importante encontro de investimento e empreendedorismo de impacto da América Latina, promovendo desde 2011 a interlocução entre os principais atores de diferentes setores da região: negócios sociais e ambientais, corporações, fundos de investimento, fundações, organizações da sociedade civil (OSCs), escolas de negócios, mídia empresarial, entre outros.

Realizada em Mérida, no México, a edição deste ano reuniu cerca de 600 participantes e trouxe para o centro dos debates a 4ª revolução tecnológica. A programação reuniu palestras, apresentação de cases, oficinas e painéis.

“Pela primeira vez, o tema das tecnologias teve uma presença forte no FLII. Um tema que costumava ficar limitado a uma seção ou escondido no meio da programação, esse ano veio como um tema central e transversal, abordando como as soluções digitais podem estar a serviço do ecossistema de investimentos e negócios de impacto para a construção de um mundo melhor”, observa Beto Scretas, do ICE.

Célia Cruz, diretora executiva do ICE, e parceiros do Programa de Incubação e Aceleração de Impacto também estiveram na edição de 2019 do FLII.

Para Leandro Pompermaier, do Parque Científico e Tecnológico da PUC-RS (Tecnopuc), o intercâmbio de experiências e conhecimentos foi o ponto alto do fórum. “O evento superou minhas expectativas. Primeiro pelo número de participantes de diferentes países, depois pelo formato que permitia um networking muito intenso e proveitoso e por fim pelos conteúdos apresentados e discutidos com painéis que traziam diferentes visões, ideias e experiências sobre um mesmo tema.”

Joana Sampaio, do Parque Tecnológico Porto Digital, destaca a diversidade de conteúdos e temáticas relevantes da programação e do público do evento, de investidores e intermediários a empreendedores.

Confira a seguir alguns dos destaques da programação a partir de suas perspectivas.

4ª revolução tecnológica

De 1990 a 2010, a pobreza no mundo diminuiu de 43% para 21%. Ainda assim, a desigualdade é um dos maiores problemas da atualidade. Os desafios mais complexos do planeta são sistêmicos e estruturais e exigem soluções também sistêmicas e inovadoras.

A partir dessa reflexão, o FLII 2019 abordou a 4ª revolução tecnológica e sua capacidade de potencializar soluções para inclusão. Os debates salientaram a revolução da internet e dos smartphones, que alcançaram pessoas fora dos canais tradicionais. Elementos como blockchain (tecnologia por trás do bitcoin), nuvem, inteligência artificial, OS City (ferramenta para construção de base de dados para cidades inteligentes) e outros, assim como os riscos associados ao gap digital e a necessidade de adaptação do uso tecnológico à realidade de cada local e comunidade, permearam as discussões na programação do evento.

Gender Lens

O tema da equidade de gênero também ganhou corpo na edição deste ano do FLII a partir dos debates sobre as chamadas gender lens (lentes de gênero), definidas como estratégias de investimento aplicadas na busca por equidade de gênero.

2,5 trilhões de dólares são necessários anualmente para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030. O progresso na equidade de gênero (ODS 5) exigirá que a pauta esteja integrada a outros ODS, como ODS 1 (Sem pobreza), ODS 3 (Boa saúde e bem-estar) e ODS 4 (Educação de qualidade).

O tema foi inserido na agenda de vários fundos de investimentos no último período, incluindo o novo fundo da New Ventures, Viwala, para o qual a organizadora do FLII fez uma parceria com a Pro Mujer, organização sem fins lucrativos que ajuda mulheres da América Latina a iniciarem pequenos negócios. Atualmente, há 87 fundos com gender lens, 27 deles lançados em 2018. Apenas 2,5% do recurso de investimento de impacto vai para mulheres.

Célia Cruz, diretora executiva do ICE, destaca que existe um consenso e muito conhecimento que mostra que mulheres empreendedoras tendem a olhar com muito mais cuidado para impacto e que elas são mais próximas das causas em que atuam. “É bastante relevante a questão de gênero para o debate de investimentos e negócios de impacto. Já existe um grande movimento para que os fundos passem a dar maior atenção a esse público, alocando recursos e criando métricas a fim de garantir que haja produtos e serviços que melhorem a vida das mulheres”, conta.

Na abertura do evento, Nathalie Molina ressaltou a importância dos investimentos em tecnologias necessárias para o desenvolvimento local e em empresas – lideradas ou não por mulheres – que focam na equidade de gênero. CEO da BRAVA Investments – empresa cujo objetivo é ajudar a desenvolver startups e apoiar negócios que beneficiam especialmente as mulheres – e autora do livro Leap Frog: The New Revolution for Women Entrepreneurs (Pulo do sapo: A Nova Revolução para Mulheres Empreendedoras, em tradução livre), Nathalie é considerada uma força revolucionária para mulheres empreendedoras em todas as partes de mundo.

Joana Sampaio, do Porto Digital, chama a atenção para a presença de startups lideradas por mulheres no evento, mas destaca a importância do investimento não apenas em empreendimentos liderados por mulheres, mas em todos aqueles que possuem uma visão voltada para o fortalecimento da mulher no mercado de trabalho.

Blended Finance

Blended Finance foi outro tema que ganhou destaque no FLII deste ano. O termo se refere a uma abordagem de financiamento misto que faz uso de capital público ou filantrópico para estimular o investimento do setor privado nos países em desenvolvimento e nas metas de desenvolvimento sustentável. O método permite que diferentes tipos de capital (sejam eles de impacto ou comerciais) invistam lado a lado enquanto cada um atinge seus próprios objetivos (financeiros, sociais ou uma mistura dos dois).

“No ecossistema de investimentos e negócios de impacto, seria a possibilidade de trazer diferentes instrumentos financeiros numa mesma parceria entre investidor e negócio. Por exemplo, uma fundação poderia fazer uma doação e depois entrar com um empréstimo. Ou um investidor poderia fazer um empréstimo e depois um equity e virar sócio da empresa. Trata-se de uma abordagem bastante rica e promissora”, explica Célia.

A diretora menciona como exemplo o Viwala, novo fundo da News Venture que oferece doação, empréstimo e assessoria para iniciativas com gender lens. Ela também destaca o Social Impact Incentives (SIIN), fundo que apoia o acesso das classes CDE a produtos e serviços de negócios cujo público são as classes AB. A proposta é que durante seis meses o investidor financie a diferença de preço em troca do compromisso do negócio de chegar ao valor mais baixo para acesso permanente desse novo público. “É uma proposta interessante para fundações e o próprio ICE apoiarem.”, observa Célia.

Beto Scretas destaca que o capital de início nesse tipo de abordagem é o capital paciente, aquele que aceita correr mais riscos. “Geralmente, o grande investidor nessa fase são as fundações e institutos e pessoas físicas de alta renda”, observa.

Para Joana, o método pode alavancar recursos que estão parados em famílias de alta renda para viabilizar a atração de capitais mais tradicionais.

Fundos de impacto

Os fundos de impacto foram outro tema destacado pela equipe do ICE e parceiros que estiveram no FLII. A programação do evento contou com uma mesa com a presença de representantes dos dez fundos de impacto pioneiros, entre eles, Vox Capital, Adobe, Inversion e Acumen.

Atualmente, existem 105 fundos de investimentos de impacto na América Latina. Dados mostram que 49% dos fundos de investimentos têm uma abordagem tradicional na primeira rodada, sendo que 35% direcionam seus investimentos para o impacto na segunda rodada e 15% na terceira.

Beto Scretas destacou  o trabalho da Capria, uma aceleradora de fundos de investimentos de impacto mundo afora. A instituição realiza chamadas a cada seis meses para selecionar novos fundos de impacto para integrar sua rede. “Atualmente eles apoiam 18 fundos, sete na América Latina. No FLII estavam presentes os sete e foi interessante ver a sinergia entre eles, principalmente nas trocas entre os países, por exemplo, com oportunidades de negócios que aparecem em um país e que o fundo de outro país já experimentou. A Capria foi pioneira nessa história e essa liderança tem sido fundamental para a alavancagem desses fundos”, conta.

Cases

De soluções para o mercado de trabalho formal e geração de renda para comunidades indígenas até plataformas de treinamento para inclusão de imigrantes bilíngues no mercado de trabalho, a edição de 2019 do FLII apresentou  cases de negócios de impacto diversos. Dois deles ganharam destaque, na percepção do ICE.

O primeiro foi idealizado por Jorge Cueto-Felgueroso, que entre 2012 e 2013, passou onze meses na prisão de Puente Grande, no México, enquanto se esclarecia um caso de reivindicação de fraude contra a empresa para a qual trabalhara. Dentro da prisão, Jorge idealizou um projeto que combina a arte das tatuagens com a moda e também transforma vidas. Ele percebeu o forte apelo que a tatuagem tem no ambiente carcerário  e encorajou seus companheiros a usarem seus dons artísticos para tatuar em bolsas e acessórios. Nos primeiros meses, o ofício gerou um lucro de cerca de 300 dólares.

Ao sair da prisão, Jorge criou a fundação Projeto Art Prison and Prison Art, que comercializa artigos com tatuagens feitas em couro. Atualmente, a marca vende cada peça a um preço que varia de 150 a 750 dólares. Os presos recebem seu pagamento por cada peça e são motivados a trabalhar. A empresa gera mais de 280 empregos a ex-detentos e possui 12 lojas no México e na Europa com um faturamento anual de mais de 1 milhão de dólares.

Outro negócio mexicano inovador apresentado durante o Fórum foi o Millas para el Retiro, aplicativo que coleta pontos de cartões de crédito para um fundo de pensão privado. O projeto representa uma alternativa inovadora para os trabalhadores, pois vincula os padrões de gastos e consumo a um novo hábito de poupar para a aposentadoria. A poupança total voluntária captada pelas administradoras de fundos de aposentadoria passou de 13 mil pesos em 2012 para 55 mil pesos em 2017.

Aprendizados

Temas como a necessidade de investimentos em soluções inovadoras para mudanças sistêmicas envolvendo elementos como cadeia da alimentação, cidades sustentáveis, entre outros, também fizeram parte dos debates do FLII 2019.

Leandro Pompermaier do Tecnopuc-RS afirma que aprendeu muito com as interações e vivências propiciadas pelo evento. “Me fez refletir sobre o posicionamento e o uso da tecnologia e da inovação no universo do impacto. Acredito que saio motivado a criar algo com diferencial em Porto Alegre que una ambiente de inovação com geração de negócios de impacto baseados em tecnologia.”

Joana Sampaio (Porto Digital), por sua vez, acredita que o evento contribuiu com reflexões e conhecimentos acerca de novos modelos de financiamento inovadores, além de networking, elementos importantes para o ecossistema de inovação e negócios de impacto no Brasil. “Enquanto ambiente tecnológico, nós tivemos contato com diversas ferramentas pouco exploradas por nós, além das próprias conexões com players relevantes nessa temática do impacto socioambiental que precisam ser incorporados à nossa rede.”



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial