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Ampliação da rede de conexões fomenta a expansão do ecossistema

O ecossistema de finanças sociais é novo no mundo e vem crescendo na América Latina. Empreendedores, investidores, academia, intermediários, governo –  há uma expansão evidente na participação dos diversos atores. Mas o que mais é possível fazer para fomentar o ecossistema global de impacto? E como ampliar as conexões entre o global, o regional e o local para fazer com que países como o Brasil avancem mais rápido no desenvolvimento do ecossistema de finanças sociais e negócios de impacto social?

Estas foram algumas das questões debatidas durante a plenária Ecossistemas de Finanças Sociais, realizada durante o Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto – Investir para Transformar, nos dias 3 e 4 de agosto, em São Paulo, evento promovido pelo Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e Vox Capital.

Participaram da plenária Henrique Bussacos, cofundador do Impact Hub São Paulo, Floripa e Manaus; José Eduardo Fiates, superintendente-geral da Fundação CERTI e diretor-executivo da Sapiens Parque S.A. (complexo que reúne empreendimentos de ciência e tecnologia, educação e cultura, saúde e biotecnologia, esporte e lazer, turismo, comércio e entretenimento); Rodrigo Villar,  sócio-fundador da New Ventures (organização que catalisa o crescimento de empresas verdes e sociais e que tem um conjunto diversificado de serviços de assistência e técnicas de aceleração com a Adobe Capital, seu braço de financiamento); Elizabeth Boggs Davidsen, gerente da Knowledge Economy Unit do Fundo de Investimento Multilateral do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); e Célia Cruz, do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), moderadora da sessão.

Para Henrique Bussacos, do Impact Hub, que atua em 50 países, “o impacto não ocorre de forma isolada, exige ação coletiva”. Bussacos, que atualmente lidera parcerias para a rede global do Impact Hub na América Latina e está trabalhando na expansão para Brasília e Rio de Janeiro, lembrou que o primeiro Impact Hub foi criado em Londres, em 2005, e em 2006 teve início a formação de uma comunidade empreendedora em São Paulo. Hoje são mais de 90 Impact Hubs no mundo.

“Para criar um ecossistema de impacto precisamos de atores que realizem alguns papéis: espaços e redes para se conectar, governo e organismos multilaterais apoiando o desenvolvimento, conteúdo de ponta, universidades e centros de pesquisa, programas de aceleração e acesso a capital”, destacou Bussacos. A experiência em cada cidade é diferente, por isso um dos pontos fundamentais da rede é que os Impact Hubs são criados por pessoas locais que vivem os problemas e identificam as oportunidades na sua cidade. Assim o Impact Hub assume diferentes papeis em função dos desafios daquela cidade em particular. “O que tentamos fazer é juntar as pessoas do ecossistema para que sejam criadas as soluções necessárias. Não só o Hub é considerado como o entregador da solução final”.

Ele considera que os principais desafios hoje do setor estão em como criar ecossistemas em mercados pouco desenvolvidos e como conectar ecossistemas globalmente para aumentar a eficiência  e replicar soluções. “No ano passado apoiamos várias iniciativas na África e chegamos a cinco Impact Hubs no continente e vários outros no processo de criação. Nos próximos dois anos estamos trabalhando também numa iniciativa na América Latina em parceria com a Argidius Foundation e estamos conversando com o BID também para juntarmos esforços”, disse Bussacos.

Em paralelo, o Impact Hub desenvolve o Scaling Program, iniciativa para escalar negócios de impacto e inovações sociais pelo mundo. O Scaling identifica negócios de impacto que já estão em um momento de escalar novos mercados e oferece apoio com a infraestrutura física do Hub e programas de desenvolvimento dos negócios. Uma primeira turma foi realizada em oito países na Europa e, a partir de 2017, América Latina e América do Norte serão incluídas.

Bussacos deixou um desafio para a busca do impacto coletivo, apresentando cinco pontos que considera fundamentais:

  • Agenda Comum: definir uma agenda comum para o ecossistema.
  • Sistemas de Indicadores Compartilhados: definir juntos os indicadores que serão acompanhados.
  • Atividades alinhadas: alinhar as atividades buscando complementariedade.
  • Comunicação Contínua: manter a comunicação entre todos os atores.
  • Organização Suporte: ter uma organização de suporte dedicada à agenda de impacto coletivo

Impacto social e ambiental na América Latina

Do global para a América Latina, Rodrigo Villar, da New Ventures, contou a sua trajetória à frente da New Ventures e da Adobe Capital, braço de financiamento. Villar também participou da criação do Las Paginas Verdes, diretório de bens e serviços sustentáveis da América Latina.

A New Ventures busca catalisar empresas com impacto social e ambiental que beneficiem o desenvolvimento da América Latina. Uma nova geração de empresas inovadoras e rentáveis, que contribuem para o enfrentamento de problemas ambientais e sociais. Nessa missão, a New Ventures ajuda a acelerar empresas  verdes.

“Há 12 anos, quando recebi a missão de selecionar 12 empresas com modelos de negócios de sucesso para ajudá-las a encontrar investidores, a missão era quase impossível”, lembra. “Consegui 16 empreendedores inovadores, capazes de inspirar, de comunicar. Na época atraímos muito a atenção, em um momento em que a imprensa nem cobria esse assunto”.

Se voltasse atrás, Villar acredita que, para tornar o caminho mais fácil, tentaria trazer mais mentores a bordo: “quando comecei a falar com mentores, não tínhamos dinheiro, mas eu pedia duas a três horas do tempo da pessoa. Nunca ouvi um não. Conseguimos vários mentores e foi isso que permitiu a nossa existência”. Foi então que surgiu a ideia de fazer um guia dos empreendedores verdes – Las Paginas Verdes -, hoje o maior guia do segmento no mundo.

Para unir todos os pontos da cadeia, Villar acredita que é preciso trazer também os consumidores: “Não chegamos a lugar nenhum se não temos os consumidores do nosso lado”. Para isso, criou o EcoFest, festival grátis de consumo sustentável, com expositores em várias frentes e atividades culturais e esportivas, além de conferências.

Outra ação tendo em vista a integração regional é o Fórum Latinoamericano de Investimento de Impacto (FLII), realizado nos últimos seis anos com o objetivo de fortalecer o empreendedor social e o ecossistema de investimento de impacto. O Fórum integra e facilita o diálogo entre empresas, empreendedores, fundos de investimento fundações, ONGs e Academia, entre outros atores. Cases de sucesso são apresentados para a troca de experiência e desenvolvimento de ações conjuntas.

Outra frente importante é o Adobe Capital, fundo de investimento de impacto com foco em impulsionar o crescimento de empresas com impacto social e ambiental inovadoras, rentáveis e escaláveis.

O pólo de desenvolvimento de Florianópolis

Com uma rede de 900 empresas na região da Grande Florianópolis, em Santa Catarina, a Fundação CERTI viabilizou um importante pólo de desenvolvimento no Brasil. Florianópolis arrecada hoje mais impostos com empresas de base tecnológica do que com o turismo.

A CERTI nasceu em 1984, a partir de professores que decidiram fazer uma integração entre o setor empresarial, a pesquisa e o desenvolvimento, gerando a base de um ecossistema na área de tecnologia, que passou a apoiar empreendimentos inovadores em várias frentes. Em novembro de 1986 havia 10 empresas, que faturavam juntas US$ 1 milhão. Hoje, as 900 empresas faturam US$ 1,2 bilhão.

“A grande maioria dos empreendedores, 95%, nasceram da Universidade Federal, dos cursos mais técnicos. E esse é um desafio hoje. Temos que ser mais multidisciplinares, até porque para negócios de impacto é preciso interagir com outras áreas”, disse José Eduardo Fiates.  A localização em Florianópolis ajudou muito, na opinião dele, porque o turismo é um fator que atrai os jovens. Por outro lado, o turismo também se beneficia da atividade tecnológica. O pólo reúne mais de 20 mil pessoas, é o setor que mais gera impostos e a média de faturamento por empresa é a terceira do país.

Para incentivar o empreendedorismo, a Fundação CERTI lançou o programa Sinapse da Inovação em 2008, que já apoiou 394 empresas. Na quinta edição, em 2015, recebeu 1.719 inscrições, 40% a mais relação ao ano anterior.  “Cerca de 100 projetos por ano são apoiados com recursos da ordem de R$ 50 mil a R$ 100 mil e já há vários na área de impacto social, voltados à base da pirâmide”, destacou Fiates.

A CERTI criou também a CVentures, companhia sem fins lucrativos que atua em venture capital e aceleração de empresas e tem a participação do BID, do governo, da Finep e de empreendedores privados. O objetivo é promover a estruturação, aceleração e alavancagem de empresas de base tecnológica e outros empreendimentos inovadores, a partir de ativos de capital, networking e mentoria. Tudo isso acaba desembocando no Sapiens Parque, a 300 metros do mar, um Centro de Convenções para 4 mil pessoas. É um parque de inovação – com empresas de tecnologia, serviços e turismo.

“Nesse conjunto, começaram a proliferar exemplos de empreendedores que percebem que negócios de impacto permitem fazer coisas novas e rentáveis”, destacou Fiates. Um exemplo é a Audaces, empresa de software para corte de tecidos e programação de imagens, que vende para 21 países. “Agora a empresa está desenvolvendo uma nova tecnologia para costureiras, para que façam produtos mais competitivos”.

Na visão de Fiates, há cada vez mais empresas que procuram, em vez de “dar a vara, ensinar a fazer ”: em outras palavras, negócios para estruturar outros negócios de impacto. De um modo geral, ele acredita que o empreendedor, tanto de negócios inovadores como de negócios de impacto, tem que acessar quatro grandes recursos: mercado, capital, conhecimento e talentos. “Cada vez mais o desafio é fazer com que os empreendedores sejam as estrelas desse movimento”, afirmou.

O olhar do BID

O BID, por sua vez, tem tido um papel muito importante não só no ecossistema de venture capital mas de corporate venture. Segundo Elizabeth Boggs Davidsen, o BID cresceu muito nos últimos anos em venture capital, com 66 fundos, em 22 países, somando US$ 225 milhões. “Tentamos mais recentemente trazer essa experiência para o universo dos negócios de impacto social, especialmente nas frentes dos investidores, do ecossistema em geral e no que se refere às métricas de impacto”, afirmou. Hoje, entre os fundos de investimento, há apenas cinco voltados a negócios de impacto.

Entre as lições relevantes aprendidas no campo, Elizabeth menciona a questão da escala, a diversificação – ir além de tecnologia para incluir saúde, educação, habitação –, o papel da due dilligence para uma gestão adequada, e o papel do setor privado que deve sempre ser envolvido, independente de ações do governo.

Elizabeth considera que a participação do BID ainda é modesta nesse segmento, mas lembra que para cada dólar investido, há a mobilização de vários parceiros. Além disso, revelou que há um “tremendo interesse” do BID no momento em incubadoras e aceleradoras. Sem mencionar detalhes, ela disse:  “Fico feliz em dizer que estamos dando apoio a um programa em Brasília, um clássico exemplo de um programa de construção do ecossistema, que deverá apoiar aceleradores e incubadoras. Queremos ajudar a aumentar o número de pessoas que trabalham com negócios de impacto. Também queremos mobilizar o investimento semente, criando um pool de investimento”.

Há um amplo leque de atores e o BID pode oferecer apoio a programas de comunicação, treinamento, métricas sociais e outros. Elizabeth considera que há uma convergência maior genuína em torno dos negócios de impacto social e lembra que as empresas em geral estão se preocupando com questões disruptivas e querem fazer parte.



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial