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COP26: clima pede impacto positivo

A partir de resultados da Conferência do Clima da ONU, especialistas apontam desafios e tendências para a geração de impacto ambiental positivo no próximo período.

“Os compromissos para a contenção do aquecimento global estão abrindo um espaço sem precedentes para que todo mundo que tenha soluções de impacto positivo passe a ser um potencial fornecedor de grandes empresas e governos que estão na rota da descarbonização, o que pode gerar inúmeras oportunidades para o ecossistema de negócios de impacto socioambiental.”

A reflexão é de Daniel Contrucci, diretor executivo da Climate Ventures, que esteve presente na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), realizada em novembro deste ano, em Glasgow, na Escócia.

Para que essas oportunidades se concretizem, no entanto, o especialista aponta alguns desafios que terão que ser respondidos pelo ecossistema de apoio a negócios de impacto no próximo período.

“Os ambientes empresarial e governamental estão começando a entender o tamanho do problema, assumindo compromissos e, no próximo período, devem começar a divulgar metas, medidas e ações para descarbonização. Isso criará uma demanda enorme por soluções, que podem ser ofertadas por negócios de impacto socioambiental. Contudo, precisaremos de modelos de negócios com tração e escala para que consigam atender à demanda e encontrar um mercado para crescer e prosperar nos próximos anos.”

Na avaliação de Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas – iniciativa do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima -, a COP26 aproximou o setor empresarial do campo de impacto, à medida que o Acordo de Paris orienta para onde o mundo deve caminhar nos próximos anos em relação à construção de um futuro de baixo carbono, que limite as emissões do aquecimento global.

“Existe uma tendência de crescimento rigoroso de todos os setores e investimentos que têm a ver com esse tema do baixo carbono. Isso envolve, por exemplo, o campo da economia regenerativa, das energias limpas e outros”, observa.

Mais demanda, mais negócios, mais capital

Na percepção de ambos, a entrada de investidores e portfólios tradicionais na agenda ambiental também é uma oportunidade sem precedentes.

Para Daniel, já existe grande pressão para que produtos de investimento tradicionais passem a incorporar métricas de impacto. “Conforme as exigências aumentam, portfólios que tenham o impacto climático positivo atrelado ao retorno ganharão destaque. Da mesma forma, os negócios que mensuram e comunicam impacto climático positivo terão mais chances de conseguir investimentos de fundos tradicionais.”

Mas, o diretor executivo da Climate Ventures chama atenção também para o provável crescimento da onda de greenwashing que esse movimento deve gerar.

“O grande desafio nesse sentido vai ser construir formas de mensurar e comunicar impacto internacionalmente aceitas, com padrões de qualidade, para que esses ativos possam circular cada vez em mais mercados. Ou seja, será necessário separar o joio do trigo em termos do que gera de fato impacto positivo no clima e o que são ações incrementais de redução de impactos climáticos negativos dentro dos portfólios investidos.”

Tasso, por sua vez, aponta para a inflexão da BlackRock (maior gestora de ativos financeiros do mundo) na direção da defesa da agenda ambiental, em 2019, e para o mesmo movimento por parte de um conjunto de fundos tradicionais, mais recentemente, como uma janela de oportunidade.

“Quando o mercado se move é porque está vendo que a economia vai se mover também e esses movimentos têm sido determinantes em relação à questão do impacto. A agenda climática está apontando a necessidade de mudar a composição dos portfólios de investimentos, seja na agricultura, no setor de energia ou na indústria. E há uma série de impactos que se desdobram para a agenda de proteção social, segurança alimentar, etc.”, pontua.

Justiça ambiental e desigualdades

Nessa direção, Tasso aponta um dos debates fortemente pautados no âmbito da COP26: o da justiça ambiental.

“Quando você olha para os impactos das mudanças climáticas, eles afetam de forma muito aguda as populações mais vulneráveis, que, em geral, são aquelas que menos contribuíram para o problema. Em outras palavras, quem menos polui com emissão de gases de efeito estufa tem recebido os maiores impactos. Então, não adianta só falar em redução das emissões, mas é preciso pensar também em mitigação dos impactos e em adaptação das populações a um mundo em aquecimento, para diminuir essas desigualdades.”

Para Daniel, a pauta da justiça ambiental é uma agenda que ainda conversa pouco com o ecossistema dos negócios de impacto, sendo, portanto, outra oportunidade a ser explorada pelo campo.

“A atual preocupação do mercado com o meio ambiente e a justiça social é resultado da evolução das legislações, que passaram a obrigar as empresas a respeitarem direitos trabalhistas e a cumprirem com regulamentações ambientais. Será que existem modelos de negócios de justiça climática que conseguem entregar valor financeiro ao mesmo tempo em que conseguem reduzir as desigualdades e combater a injustiça socioambiental de maneira efetiva e com o mínimo de escala? Se existem, eu adoraria conhecê-los”, convoca.

Ecossistemas locais

Daniel aponta ainda oportunidades de diálogo entre o ecossistema de negócios de impacto com as políticas públicas locais, citando municípios como Campinas (SP), Belo Horizonte (MG) e Recife (PE).

“Temos um desafio enorme em um país como o Brasil, com mais de cinco mil municípios, em que muitos ainda nem sabem o que é agenda climática. Mas já existem alguns municípios e estados que estão se comprometendo com rotas de descarbonização. São governos que estão saindo na frente, dando exemplo, mostrando uma liderança importante para que essa agenda seja, de fato, incorporada em outras localidades”, observa.

Para o diretor, a capacidade de leitura dos efeitos positivos sistêmicos do combate às mudanças climáticas dentro das políticas públicas municipais pode mostrar que existe uma agenda de ganha-ganha para prefeituras e governos locais.

“Quando a gente pensa em projetos de arborização, corredores verdes, proteção de nascentes, redução de combustíveis fósseis, soluções de transporte público de baixa emissão, etc., no longo prazo, isso tem um reflexo direto na melhoria da qualidade de vida das pessoas e na redução de gastos públicos com saúde. E, certamente, gera uma série de oportunidades, principalmente para modelos de negócio de impacto socioambiental Business to Governement (B2G).



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial