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Entrevista Dario Guarita Neto e Ana Sarkovas | Juntos para transformar com impacto positivo

Em entrevista ao Boletim ICE, o casal Dario Guarita Neto e Ana Sarkovas fala sobre as expectativas para o início da Jornada Portfólio: Migração para Impacto para famílias de alta renda interessadas em aliar investimentos à solução de desafios sociais e ambientais.

Apoiar famílias de alta renda a construírem uma visão que sustente a criação de portfólios de investimentos de impacto como parte de seu legado para o futuro é o  objetivo da Jornada Portfólio: Migração para Impacto. Uma realização de ICE, Impactix e TheImpact, a iniciativa contará com a mentoria do austríaco Charly Kleissner, que optou por esse caminho junto com a esposa e dois filhos ao migrar  todo seu portfólio de investimentos para  impacto ao longo dos últimos dez anos.

Considerando várias classes de ativos, a Jornada pretende promover reflexões sobre desenvolvimento de teses de investimentos pelas famílias e compartilhar melhores práticas de famílias que já realizaram a migração no Brasil e no exterior. Estão previstos dez encontros ao longo de 2021, sendo o primeiro em março.

O casal Dario Guarita Neto, associado e conselheiro do ICE, e Ana Sarkovas, conselheira do Sistema B, é uma das famílias que participarão da Jornada.

Presidente do Conselho da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e membro do Comitê de Investimentos da VOX Capital, Dario é sócio-fundador da AMATA, empresa florestal brasileira que produz madeira certificada por meio do manejo sustentável de florestas tropicais e plantações de Pinus, Eucalipto e espécies nativas.

Ana, por sua vez, é co-fundadora da Ecoa Capital, liderou o Sistema B no Brasil por três anos e trabalhou na AMATA, Banco Real e Ashoka, com foco no desenvolvimento de negócios com impactos social e ambiental positivos.

Juntos, eles contam as expectativas, vivências e percepções que são o ponto de partida nessa jornada. Confira a entrevista a seguir.

Boletim ICE: Você é presidente do Conselho da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), uma fundação familiar que nasceu em 1965 para incentivar a pesquisa no campo da hematologia a partir de uma motivação pessoal (a perda de um filho) e que abraçou a causa da primeira infância em 2007. Como você se conecta a essa história?

Dario: Além da conexão óbvia pela história da minha família, meu engajamento definitivo com a Fundação começa pelos idos de 2002, quando a terceira geração da nossa família foi chamada para redefinir a estratégia da Fundação. Decidimos, naquele momento, que aquele seria o nosso veículo de investimento conjunto no terceiro setor a partir de um novo foco de atuação. Acertamos esse foco nos anos que se sucederam, através do exercício de uma governança sólida e disciplinada, e encontramos, com a ajuda dos Comitês de Conteúdo e dos Conselhos de Curadores, a causa do Desenvolvimento da Primeira Infância como nossa vocação.

Boletim ICE: O que você tem buscado construir com o time da FMCSV desde que se tornou presidente de seu Conselho?

Dario: Buscamos, incansavelmente, nos últimos anos, medir o que importa e alocar recursos humanos e financeiros, nossos e de parceiros, em uma agenda que produza alto impacto e que, de fato, faça mexer positivamente o ponteiro da nossa causa.

A agenda da Fundação é extensa e complexa. Nossa causa se conecta diretamente com o indicador 4.2 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que trata de garantir, até 2030, que todas as meninas e meninos tenham acesso a um desenvolvimento de qualidade na primeira infância. Para atender a esse objetivo, escolhemos quatro pilares de grande impacto: avaliação de programas e políticas para a Primeira Infância; acesso de qualidade a creche para todos que precisam; comunicar, ou seja, fazer com que todas as pessoas saibam da importância da Primeira Infância; e produzir e disseminar conhecimento para contribuir com aqueles que estão cuidando das crianças.

Nosso maior pesadelo é o de trabalhar arduamente nesse processo sem causar o impacto desejado. Temos que olhar para trás daqui a dez anos e conseguir medir a evolução do desenvolvimento da Primeira Infância no nosso país. São mais de 20 milhões de crianças de 0 a 6 anos e quase a metade delas em situação de alta vulnerabilidade. Nossa visão é a de que precisamos dar a oportunidade de desenvolvimento pleno para todas essas crianças para que possamos desenvolver a sociedade brasileira como queremos.

Boletim ICE: Qual foi a motivação para que você e Dario aceitassem o convite para participar da Jornada Portfólio: Migração para Impacto?

Ana: Nós estamos, há pelo menos três anos, discutindo e lidando na prática com as principais questões e desafios para a transição de um portfólio de investimentos para maior impacto positivo. O primeiro passo foi fazer um diagnóstico do portfólio e entender o que poderia ser considerado investimento ESG [Environmental, Social and Governance] e investimento de impacto, considerando que ainda não temos métricas unificadas no mercado que façam essa classificação.

Para isso, falamos com os gestores do portfólio para entender como cada um fazia a avaliação, considerando os aspectos ambientais, sociais e de governança, e quais produtos e serviços estavam disponíveis para uma possível migração, sem abrir mão de retorno, já que a nossa crença é de que são as empresas que estiverem conectadas com esse novo patamar ético de gestão as que triunfarão e irão gerar maior retorno para todos os envolvidos. Os players internacionais se mostraram mais conectados a essa discussão, trazendo alguns caminhos para essa transição, que ganhou outro ritmo aqui no Brasil pós a chegada da pandemia de Covid-19 no ano passado.

Além disso, ficou claro que era muito mais fácil iniciar a transição em classes de ativos como Private Equity, onde o poder de influência e monitoramento é muito maior, mas também escolhendo gestores que têm uma cultura alinhada com nossos valores e visão de mundo. Desde então, não paramos mais de perguntar, participar de discussões com famílias, gestores, bancos, compartilhando um pouco do nosso caminho e aprendendo com quem também já está nessa jornada.

A nossa motivação em participar da Jornada Portfólio: Migração para Impacto, do ICE, é justamente construir esse caminho junto com outras famílias, já que ele é ainda muito solitário no Brasil. Apesar do ‘boom’ do ESG e do impacto no último ano, temos muita gente vocalizando, mas poucas fazendo na prática e lidando com as incoerências de estar nessa geração de transição. Temos ainda um longo caminho pela frente, mas definimos como meta ter 100% do portfólio atrelado a impacto positivo e ESG até 2030. Hoje estamos em 20%.

Boletim ICE: Na sua avaliação, que tipo de contribuição o ICE pode dar a filantropos, empresários, acionistas e investidores que se tornam seus associados?

Dario: O ICE tem contribuído desde a sua fundação com empresários na fronteira do conhecimento dos temas relacionados ao seu envolvimento com aquilo que vai além do negócio, na sua ação como cidadão. A filantropia já foi um tema, a responsabilidade social uma evolução e agora, de forma contemporânea, o assunto da geração de impacto positivo como foco de atuação. O ICE traz para a rede informação, conteúdo, articulação e conhecimento para que cada empresário possa atuar dentro e fora de sua empresa, como família ou como indivíduo, no que se refere ao tema do impacto.

Ao investidor, estimula a experimentar investir em empresas reais que buscam solucionar algum desafio atual gerando impacto positivo ou então discutir com pares no Brasil e fora do país uma possível transição de portfólio de investimento tradicional para um de geração de impacto positivo. Ao empresário, o Instituto possibilita conhecer as ferramentas que poderão ser implementadas no seu negócio e que endereçarão temas como impacto e ESG.

Enfim, as frentes de atuação do ICE são muitas e o clube muito diverso. A troca sobre reais desafios enfrentados por empresários, empreendedores e investidores, de diversas gerações, são de altíssimo valor para o associado ICE. Os associados podem, na medida do seu interesse e dedicação, viver a fronteira do conhecimento do mundo do impacto através do trabalho da instituição.

Boletim ICE: Conte um pouco sobre o Fundo que vocês estão criando? Qual é a tese de impacto e que tipo de negócios pretendem buscar?

Ana: A Ecoa é uma gestora que investe na compra de participação societária de empresas que estão ou têm o potencial de estar alinhadas ao espírito do nosso tempo, o chamado Zeitgeist. As empresas que se conectam com esse espírito são aquelas que usam o seu modelo de negócio para solucionar algum desafio atual – o impacto está no que ela entrega, no seu produto ou serviço ou em como ela atua: seus processos, governança, práticas de gestão e relacionamento. São empresas que vão muito além do cumprimento da legislação e do código moral vigente, mas cuja preocupação com a rastreabilidade, origem, transparência, diversidade, relações justas e cuidado com o meio e com as pessoas faz parte da cultura vigente.

Somos uma geração de transição entre o novo e o tradicional, vivemos as incoerências desse tempo, estamos nos ajustando ao novo modelo. O consumidor contemporâneo exige esse novo patamar ético de gestão. Acreditamos que empresas que não estiverem conectadas com essa demanda deixarão de existir, as que estiverem triunfarão. Esse momento de transição representa, para a Ecoa, uma grande oportunidade de negócio e queremos ser protagonistas dessa história ao construir um portfólio de empresas que têm uma integridade entre o que estão produzindo e como atuam. Nossa estratégia de investimento tem como objetivo transformações positivas em alta escala ao investir capital humano, financeiro e de rede em soluções que geram mudanças sistêmicas.



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial