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Entrevista | Paula Fabiani: “Negócios de impacto positivo serão fundamentais para os ODS”

Para Paula Fabiani, CEO do Instituto de Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), existe uma relação estreita entre a cultura de doação no Brasil e setores voltados ao impacto socioambiental positivo, com espaço para um novo perfil de filantropo com o Venture Philanthropy.

O maior engajamento das classes mais favorecidas e da valorização da doação e das organizações da sociedade civil (OSCs) para enfrentar os desafios socioambientais no Brasil, sobretudo a fome e a pobreza, são alguns dos achados da Pesquisa Doação Brasil 2020.

Em sua segunda edição, a iniciativa do Instituto de Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) analisa as ações e o comportamento dos doadores, trazendo um capítulo especial dedicado à influência da pandemia sobre a cultura de doação no país.

Em entrevista ao ICE, Paula Fabiani, CEO do IDIS e coordenadora do estudo, analisa a relação entre o atual panorama da cultura de doação e o ecossistema de investimentos e negócios de impacto, ressaltando a importância dessas soluções na busca pela recuperação econômica, social e ambiental.

Com vasta trajetória nos campos da filantropia e da cultura de doação, a especialista é a única brasileira certificada na metodologia de avaliação de impacto Social Return on Investment (SROI) pela Social Value UK e esteve à frente da avaliação da parceria ICE-BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Confira a entrevista.

ICE: Apesar de as doações terem ganhado força no início da pandemia de Covid-19, vimos que elas sofreram queda em 2020, em comparação com o resultado de 2015, de acordo com a segunda edição da Pesquisa Doação Brasil. Quais pontos poderiam explicar essa queda?

Paula: Apesar da resposta das empresas, mensurada por meio do Monitor das Doações, a Pesquisa revelou que a doação individual encolheu no Brasil em todas as suas formas: doação em dinheiro, bens e tempo (trabalho voluntário). Ao analisar a composição dos dados, fica claro que as alterações se deram por conta da crise econômica agravada pela pandemia e pelo cenário de incertezas. Muitos brasileiros deixaram de ser doadores e se tornaram beneficiários das doações.

Também observamos que a doação de dinheiro para organizações e iniciativas socioambientais encolheu muito entre as classes menos favorecidas (de 32% para 25% na faixa com renda familiar até dois salários mínimos) e cresceu significativamente entre as classes com mais alta renda (de 51% para 58% nas classes com renda familiar entre seis e oito salários mínimos e de 55% para 59% entre as classes com renda familiar acima de oito salários mínimos). Essas classes doaram mais em 2020 do que haviam feito em 2015, o que é promissor para a cultura de doação no longo prazo. Podemos afirmar que a cultura de doação se fortaleceu de 2015 para cá e o brasileiro que tinha condições financeiras se engajou na prática da doação.

ICE: Na sua análise, o que explica esse maior engajamento entre as classes com renda mais alta revelado pelo estudo?

Paula: Essa alta é reflexo de alguns fatores. Em primeiro lugar, apesar do encolhimento do volume doado, a população brasileira vê a doação de forma cada vez mais positiva. Mais de 80% da sociedade acredita que o ato de doar faz diferença e, entre os não doadores, essa concordância atinge 75%. O conceito de que a doação faz bem para o doador cresceu significativamente, de 81% para 91% da população, atingindo uma maioria quase absoluta.

Outro aspecto positivo é que a ideia de que o doador não deve falar que fez doações está perdendo força. Em 2015, ela contava com a concordância de 84% da população e, em 2020, esse percentual caiu para 73%. Este é um ponto especialmente importante porque o falar sobre a doação estimula sua prática, traz inspiração, esclarece temores e desperta o interesse de outras pessoas. Vemos mais pessoas famosas falando sobre sua doação, assim como doadores de valores pequenos.

Destaco também o aumento da confiança nas organizações da sociedade civil, mais conhecidas como ONGs. A noção de que são necessárias no combate aos problemas socioambientais recebeu a adesão de 74% da população, enquanto em 2015, essa concordância estava em 57%. A afirmação ‘Percebo que a ação das ONGs leva benefícios a quem realmente precisa’ recebeu a concordância de 67% da população, enquanto em 2015, esse índice era de 47%.

Por fim, diminuiu de 47% em 2015 para 36% em 2020 a percepção de que “só o governo tem responsabilidade de resolver os problemas”. Ou seja, vemos um avanço na cidadania do brasileiro.

ICE: O combate à fome e à pobreza foi citado por 43% da população como sendo a causa mais sensibilizadora e mais de 80% da sociedade acredita que o ato de doar faz diferença. Qual legado você imagina que a pandemia pode ter deixado para a cultura de doação no Brasil?

Paula: Vejo como legado dessa crise o aumento da consciência da sociedade sobre a importância da doação e uma visão muito mais positiva das organizações da sociedade civil e seu trabalho. Além disso, vimos que as classes mais privilegiadas demonstraram maior grau de solidariedade e responderam à crise de 2020 doando mais. Acredito que esse movimento deva continuar, uma vez que os desafios socioambientais são ainda maiores diante dos efeitos negativos da pandemia.

ICE: O último Mapa de Negócios de Impacto mostra que dos 1.272 empreendimentos mapeados, 44% já acessaram doações ou investimentos. Destes, 69% acessaram doações, o que corresponde a 30% dos negócios de impacto desta base. Na sua avaliação, como os negócios de impacto se inserem na discussão sobre o aumento da preocupação com questões sociais e também ambientais?

Paula: O aumento das desigualdades e desafios socioambientais reforçam a relevância de contarmos com todos os setores na busca e implantação de soluções. Para alguns temas, já encontramos empresas sustentáveis com produtos e serviços promissores. Para outros, ainda precisamos de capital filantrópico para seu desenvolvimento. Parcerias entre o setor privado e o setor filantrópico serão cada vez mais frequentes para avançarmos na direção de um país mais justo e que cuida de seu meio ambiente: existe muita troca possível entre esses setores. Os negócios voltados ao impacto socioambiental positivo serão fundamentais para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e, para uma maior adesão à agenda ESG [da sigla em inglês Environmental, Social and Governance], precisamos das inovações geradas por esse ecossistema para acelerarmos essa jornada.

ICE: Qual é a sua percepção sobre Venture Philanthropy no Brasil? Como essa tendência crescente dialoga com a cultura de doação? É possível relacionar o crescimento da cultura de VP com o crescimento do campo dos investimentos e negócios de impacto?

Paula: O Venture Philanthropy responde ao desejo de investidores de alocar capital (filantrópico ou não) em iniciativas que transformem positivamente nossa sociedade. Essa modalidade de investimento para impacto se posiciona entre a filantropia tradicional e o investimento de impacto, visando gerar mudanças sistêmicas a partir de soluções inovadoras que possam ser escaladas e replicadas por outro tipo de investidor, como instituições do setor financeiro, fundos de investimento de impacto ou investidores tradicionais que visam retorno financeiro.

Por conter princípios e práticas similares aos mecanismos de investimento de capital de risco, o VP abre espaço para incorporar um novo perfil de filantropo. Existe uma relação íntima com a cultura de doação, pois, em grande parte, essas iniciativas são financiadas nos estágios iniciais por doações filantrópicas. Dessa forma, os dois setores se beneficiam com o aumento da cultura de doação no país.

 

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ICE – Instituto de Cidadania Empresarial