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Superação da crise causada pela Covid-19 passa por investimento em respostas direcionadas pelo impacto, defende GSG

Sebastian Welisiejko, diretor de políticas públicas do GSG, organização global que tem como objetivo fomentar o campo de investimentos de impacto no mundo, comenta sobre a potência do ecossistema de impacto no Brasil e porque medidas guiadas pelo impacto constituem a melhor oportunidade de recuperação no pós-crise. 

A crise acarretada pela disseminação global da Covid-19 tem pedido respostas de todos os setores da sociedade, uma vez que a grande maioria deles foi afetada de alguma forma. Enquanto organizações ligadas à educação estão concebendo medidas e ferramentas para oferecer ensino à distância, o investimento social privado está fazendo doações de diferentes naturezas e se conectando com organizações da sociedade civil que também estão conduzindo ações emergenciais. Mas, como a pandemia atingiu os investimentos e negócios de impacto? Quais respostas estão sendo pensadas em nível global por este setor? 

Segundo documento elaborado pelo Global Steering Group for Impact Investment (GSG), ainda não é possível observar o impacto como foco de ação entre as respostas de alguns países. Apesar dos inúmeros e evidentes desafios sociais, econômicos e na área da saúde, o grupo acredita que o momento oferece tanto a necessidade quanto a oportunidade para que sua rede de países membros (chamados “NAB´s – National Advisory Board”)e parceiros assumam um papel de liderança na resposta à crise, focando esforços na defesa e discussão de políticas de impacto. 

Para Sebastian Welisiejko, diretor de políticas públicas do GSG, sem respostas orientadas para impacto, será impossível que o Brasil ou qualquer outro país no mundo consiga superar os efeitos da crise atual. “O impacto socioambiental deve estar no centro de cada política, investimento e decisão de negócio tomada durante todas as fases da crise”, afirma.  

Segundo o diretor, isso significa, durante a fase de resposta imediata à pandemia, proteger os mais vulneráveis, pequenos negócios, organizações sociais, trabalhadores informais, mulheres, crianças e jovens. Tudo isso pode ser feito não somente a partir de assistência direta, mas também com a introdução de instrumentos inovadores baseados em pagamento por resultados, de forma a apoiar uma recuperação sustentável. 

“Nós entramos nessa crise com níveis alarmantes de desigualdade e degradação ambiental e existe uma chance de sairmos disso tudo com níveis de exclusão e desastre ambiental ainda maiores se não passarmos a fazer as coisas de uma forma radicalmente diferente. Para isso, é claro que todos os atores precisam fazer parte desse esforço sem precedentes, desde o governo até investidores, empresas e a sociedade civil.”

O pós-crise

Vale ressaltar, entretanto, que além de proteger os mais vulneráveis, são necessários planos e estratégias que também considerem o momento pós-pandemia, no qual o mundo tentará se recuperar das consequências. Por isso, Sebastian aponta a importância de prover assistência a organizações da sociedade civil e pequenos negócios. 

“Se nós permitirmos que empresas fechem e empregos se percam, a recessão será mais profunda e a recuperação mais lenta e difícil. Da mesma forma, perder os negócios de impacto prestadores de serviços sociais durante essa fase inicial de ‘sobrevivência’ significa que não poderemos contar com eles para lidar com as consequências sociais da crise nos próximos meses. Na fase de recuperação, a maioria dos países – e o Brasil não deve ser uma exceção – enfrentará desafios nas áreas de saúde, educação e mercado de trabalho.”

Saúde ou economia: é preciso escolher um? 

Segundo o estudo Assessing the Fallout from the Coronavirus Pandemic, do banco JP Morgan, é esperado que a economia global sofra uma contração na primeira metade do ano, com os Estados Unidos retraindo por volta de 14% no segundo trimestre, e a zona do euro, cerca de 20%. Isso significa que uma recuperação antes de outubro é altamente improvável, cenário confirmado por diversos economistas. O impacto no mercado de trabalho também conta com projeções alarmantes: do melhor para o pior cenário, podem ser perdidos de cinco a 25 milhões de empregos no mundo. 

Dados sobre o impacto na economia e no mercado de trabalho, como os citados acima, foram utilizados por alguns presidentes e líderes mundiais para criar uma narrativa que coloca em lados diferentes o zelo com os empregos e os cuidados com a saúde diante da nova doença. Sebastian afirma que o GSG entende que controlar a pandemia é um ‘pré-requisito’ para a reativação econômica. Dessa forma, o documento do grupo classifica como falsa dicotomia a oposição entre saúde e economia. 

O diretor pontua que é necessário direcionar todos os esforços e recursos para, em primeiro lugar, controlar a pandemia enquanto cuida-se dos mais vulneráveis socialmente e protege-se o setor produtivo e os empregos. “Isso deve ser encarado tanto como um imperativo social e como a resposta econômica mais racional. Se nós adotarmos soluções ‘híbridas’ ou parciais para a crise da saúde, ela irá persistir e levará mais tempo para retomarmos as atividades econômicas. Por mais alto que o investimento necessário para controlar a pandemia pareça, ele será compensado se ganharmos uma semana ou um mês de atividade ‘normal’. Existe um risco de permanecermos ‘presos’ em uma crise sanitária que impedirá as atividades econômicas por diversos meses”, explica Sebastian. 

O especialista cita o estudo do economista, prêmio Nobel e embaixador do GSG, Paul Romer, para reforçar que existem formas de a preocupação com a saúde e a recuperação econômica coexistirem. Segundo o modelo de Paul Romer, implementar testes massivos nos Estados Unidos teria o mesmo efeito de controle da pandemia do que realizar um lockdown (controles rigorosos sobre circulação de pessoas impostos em países como Itália e Espanha em resposta à pandemia), o que traria maiores consequências do ponto de vista econômico, algo na casa dos 400 bilhões de dólares por mês. 

O que pode ser feito? 

Em nome do GSG, Sebastian afirma que, para responder aos desafios que o momento impõe, existem oportunidades de investir em respostas baseadas em resultados e também relacionadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), focados em arrecadar recursos para apoiar programas e intervenções em áreas específicas. 

O GSG pretende, através de seus países membros (sendo o Brasil, um deles), continuar a fomentar a inovação. Segundo Sebastian, o representante brasileiro no GSG – , a Aliança pelo Impacto – está entre os mais ativos, comprometidos e inovadores do mundo. “A Aliança pelo Impacto mostrou determinação e efetividade ao reunir atores-chave do mercado local, incluindo o governo, tendo tido papel relevante na criação, em dezembro de 2017, da estratégia nacional para investimento de impacto [a ENIMPACTO]. Chegou a hora de escalar as inúmeras boas experiências vistas no mercado brasileiro nos últimos anos”, afirma. 

No caso específico do Brasil, o GSG está ajudando a identificar iniciativas passíveis de implementação na resposta à crise, priorizando áreas temáticas urgentes que são importantes para o setor público e onde há maior escopo e possibilidade de atuação do capital privado.  Segundo Beto Scretas, membro da diretoria executiva da Aliança e representante do Brasil no conselho do GSG, a Enimpacto propôs ações de resposta de curto e médio prazo à crise, e a parceria com o time capitaneado pelo Sebastian será fundamental para replicar no Brasil soluções inovadoras que estão sendo implementadas em outros países. 

Tempo de oportunidades 

Considerando que cada país conta com suas particularidades, Sebastian defende que é necessário que o ecossistema de impacto brasileiro trabalhe conjuntamente com outros países, identificando sinergias. “Por mais contraintuitivo que isso pareça, nunca existiu uma época tão propícia para pressionar por um novo paradigma socioeconômico , que funcione para todos os setores e restaure sistemas naturais. Se o pós-crise significar fazer negócios como estamos acostumados, será um grande retrocesso. O Brasil é a central de energia da América Latina, um dos mais biodiversos e importantes países do mundo. Como tal, o mundo precisa vê-lo emergir como um líder decisivo na revolução de impacto”, afirma o diretor. 

A ótica de oportunidade é defendida pelo documento do GSG, que afirma: “Nós enxergamos esse período de crise como uma oportunidade única para introduzir um novo paradigma de risco, retorno e impacto na economia global. Somente promovendo mudanças sistêmicas significativas nós estaremos em posições melhores para emergir da crise sem um sofrimento evitável às populações mais vulneráveis e mais dano aos ecossistemas naturais do planeta.”



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial