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Gestores de fundos e investidores debatem investimento de impacto

ICE e Aliança pelo Impacto apoiaram o encontro, que discutiu métricas, motivações e o papel de family offices no ecossistema.

O encontro Investimento de Impacto: A visão dos gestores e investidores reuniu no início do mês de outubro gestores de fundos e investidores para um diálogo sobre conceitos, métricas e reflexões sobre o seu papel no ecossistema de impacto. Promovido por Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), Centro de Capacitação Profissional ABVCAP (VCAPE), Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, Laboratório de Inovação Financeira e pelo anfitrião Mattos Filho Advogados, o evento se propôs a debater o campo, tendo como público-alvo investidores individuais de alta renda, family offices e investidores institucionais. 

José Alexandre Vasco, superintendente de proteção e orientação aos investidores na  Comissão de Valores Mobiliários (CVM), apresentou brevemente a atuação do Laboratório de Inovação Financeira, o LAB, cujo objetivo é promover as finanças sustentáveis no Brasil a partir da criação de soluções inovadoras de financiamento que atraiam recursos privados para projetos de impacto socioambiental positivo.

“Entre os objetivos do LAB está ajudar o Brasil a alcançar os ODS [Objetivos de Desenvolvimento Sustentável]. A maioria deles precisa de investimentos e o mercado de capitais pode desempenhar esse papel de forma efetiva. A potência do LAB não vem de um ou outro participante, mas sim da combinação de diferentes competências”, explicou. O superintendente mencionou ainda o lançamento de um sandbox – uma espécie de regulação que disponibiliza uma inovação no mercado até a obtenção da licença permanente – previsto para o início do ano que vem, além da possibilidade de o mundo das fintechs – empresas que criam soluções a partir do uso intensivo de tecnologia – e de impacto conversarem entre si.

Beto Scretas, consultor do ICE e da Aliança, trouxe um panorama sobre investimentos de impacto no Brasil. O consultor citou o Mapa de Negócios de Impacto Social+Ambiental, produzido este ano pela Pipe.social, que mapeou 1.002 negócios de impacto no Brasil; o trabalho da Aliança pelos Investimento e Negócios de Impacto, com particular ênfase na divulgação do Guia de Produtos Financeiros de Impacto Socioambiental, que mapeia alternativas para investidores interessados em produtos financeiros de impacto. Scretas também abordou em sua apresentação a importância do engajamento de famílias de alta renda no cenário de investimentos de impacto e compartilhou a experiência do grupo FORImpact, conduzida pelo ICE e Impactix com doze famílias (saiba mais sobre o projeto).

Andrea Kestenbaum, associada ao ICE, sócia da Positive Ventures e gestora de fundos de venture capital de impacto, comentou sobre a importância da aproximação entre ICE e CVM para aumentar o grau de informação sobre investimentos de impacto no mercado tradicional. “O evento conseguiu atrair importantes gestores de family offices, dentre os quais, vários estão em conversas ativas com a Positive Ventures, demonstrando grande interesse pelo tema. Sabemos que o assunto atrai cada vez mais entusiastas, principalmente entre as novas gerações. Nesse sentido, é muito importante manter esse público mobilizado e informado”, avaliou Andrea, que também destacou o papel dos advogados na articulação do setor, ressaltando o protagonismo do Mattos Filho.

 

As diversas estratégias dos gestores 

A primeira mesa do dia reuniu gestores com diferentes perfis para dividirem sua trajetória no ecossistema de impacto e as motivações que os levaram a essa área. Daniel Izzo, co-fundador da Vox Capital, explicou que a organização já surgiu com a ideia de investir em negócios que geram algum impacto socioambiental. “Hoje em dia, não dá mais para fazer alocação de capital sem pensar na consequência que aquele dinheiro está causando. O modelo mais tradicional de risco e retorno está ficando ultrapassado, pois não considera externalidades. Nas gerações mais novas, esse “chip de impacto” já existe. Elas não conseguem ignorar o impacto quando vão fazer negócios.”

Paula Martins, gerente de novos negócios na Antera Investimentos, reforçou que apesar de o Brasil ter grande potencial para geração de negócios e empreendimentos, mercado consumidor na base da pirâmide, riqueza territorial e espírito empreendedor, o país ainda recebe uma pequena parcela do investimento de impacto do mundo. “Precisamos atrair investimentos para conseguir converter todo o potencial que temos. Considerando o contexto de mudança de geração, de mentalidade corporativa de empresas, investidores e gestores, além de o mercado estar reconhecendo em termos de retorno o potencial de empresas que se preocupam com impacto, faz todo o sentido estar engajado nesse movimento.”

Na posição de moderadora, Flávia Oliveira, sócia do Mattos Filho, questionou os participantes sobre o processo de seleção para investimento de impacto. Patrick Cannell, sócio da Performa Investimentos, comentou que a gestora, embora tenha o retorno financeiro como central  na hora de escolher seus investimentos, entende que é fundamental que a empresa investida tenha impacto como fator intrínseco em seu modelo de negócios. “Estamos fazendo negócios com pessoas. Temos que estar confortáveis e alinhados com as expectativas do time.”

Arthur Coelho, da Vinci Partners, apresentou as fases que constituem o processo de seleção de investimentos da organização. A primeira é constituída por 16 perguntas, que vão desde atividades ilegais até ações que possivelmente tenham algum impacto negativo. Na segunda etapa, é verificada a elegibilidade da empresa de acordo com alguns critérios: dar acesso a capital em regiões de vulnerabilidade ou pouco acesso, ter impacto como central na atividade e na empresa. Na terceira etapa, é criada uma pontuação de impacto de determinado investimento, considerando de qual impacto está tratando, a quem será levado esse impacto, qual mudança é esperada e qual possível risco se não alcançar o impacto. 

 

A visão dos investidores 

A segunda mesa reuniu investidores em torno do debate sobre a importância de atrair novos gestores de fundos de impacto e famílias atuando no ecossistema. Renata Nascimento, uma das cofundadoras do ICE, investidora, filantropa e acionista do grupo Camargo Corrêa, comentou que a ideia de um negócio ir além de sua performance financeira e contar com um componente de transformação nas áreas sociais e ambientais a motiva. Além disso, reforçou que um dos grandes desafios do século 21 é a mudança de mentalidade sobre o tempo de retorno de investimentos. 

“Principalmente acionistas e lideranças devem ter um apetite maior ao risco, juntamente com a ideia de resultados mais pacientes, pensando em uma sociedade fortalecida, empoderada e autônoma porque é isso que irá transformar o país. Muitas pessoas dessa área estão vendo que ter impacto socioambiental positivo é o que vai alavancar o sucesso do seu negócio. É toda uma nova forma de pensar o negócio.” 

Fabio Tran, diretor de investimentos da Omidyar, organização criada por Pierre Omidyar, fundador do eBay, reforçou a importância de apoiar pessoas comprometidas com inovação para renovação e avanço de setores. “Quando penso no desafio da educação, há muito espaço para inovação, mas hoje existem sistemas públicos e privados resistentes. O papel do investidor é apoiar empreendedores que vão conseguir fazer isso acontecer, aumentando com escala e qualidade a educação no Brasil. Quando olho para a área, e entendo o papel do empreendedor que tem uma estratégia de impacto, fica mais fácil entender porque devo fazer um investimento de impacto.”

Alexandre Lindenbojm, sócio fundador da Wright Capital, levou uma reflexão sobre a  metodologia usada para convencer gestores tradicionais a pensarem em impacto. “Nós fazemos provocações para entender o que esses gestores fazem, dentro de suas estratégias, que irá contribuir para um mundo melhor. Acredito que temos a responsabilidade de deixar um mundo melhor do que o que recebemos e isso não irá acontecer com iniciativas isoladas. Atuar para trazer essa cultura do impacto com uma visão estratégica e de fortalecimento do ecossistema é fundamental para que ocorram mudanças.”

 

Cases

O último momento da reunião foi destinado ao debate sobre casos de sucesso. Daniel Izzo, da Vox Capital, dividiu a mesa com Marcelo França, criador da Celcoin, plataforma que possibilita o pagamento de contas de consumo, recargas de celular, tevê e outras funcionalidades, dando acesso a serviços financeiros para milhões de pessoas que dependem de lotéricas e agências bancárias.

Patrick Cannell e Peter Cabral, vice-presidente da Unicoba Energia, vieram em seguida para contar sobre o investimento na empresa que hoje é líder de iluminação LED de média e alta potência no Brasil, além de ter forte presença na iluminação pública.  

Beto Scretas (Aliança pelo Impacto) avaliou o evento como muito bem sucedido, seja pela qualidade do debate, seja por ter atraído mais de 100 pessoas, muitas delas com pouco ou nenhum conhecimento sobre o tema. “Famílias de alta renda foram e são fundamentais para o crescimento do volume de investimentos de impacto no Brasil e no mundo, pois, em geral, é uma fonte capital mais flexível e com maior apetite para risco quando comparada a investidores institucionais, como por exemplo fundos de pensão”, conclui ele. 

 



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial