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GovTech tem potencial para fomentar o campo de impacto no Brasil

Especialistas debatem desafios e oportunidades para empreender para o setor público e com isso gerar transformações.

O setor público está entre os grandes compradores do país, gastando cerca de 10 a 15% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em suas aquisições. Ao mesmo tempo, muitos dos negócios de impacto criam soluções em áreas que são majoritariamente atendidas pelo setor público, como educação, saúde e mobilidade urbana, por exemplo. Assim, incluir negócios de impacto nas políticas de contratações públicas tem potencial para induzir positivamente o mercado, dar relevância ao setor e reforçar o compromisso do poder público com a efetividade do impacto no seu atendimento à população.

Para debater os desafios e as oportunidades frente a essa realidade, o ICE organizou a sessão “Inovação e Escala: papel do governo” durante o segundo dia de programação (09/05) do 4º Encontro Nacional do Programa Academia.

De acordo com a Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, o envolvimento do governo, nas suas três esferas, é primordial para potencializar e orientar o campo. Experiências internacionais priorizam três papéis para o poder público: 1) Regulador (de mecanismos financeiros de impacto); 2) Fomentador (de temas, modelos e organizações indutoras); e 3) Comprador (de produtos e serviços originários de negócios de impacto).

“Das três instâncias de papéis do governo, a mais fácil é o fomento, que consegue alocar um pedaço do orçamento. O nível da regulação demanda uma articulação de mais alto nível. O papel de comprador também é um grande desafio a ser vencido. O estado será muito bem sucedido em usar seu poder de compras quando a gente conseguir colocar nas compras do governo critérios de sustentabilidade”, observou Lucas Maciel, coordenador da Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (Enimpacto) no Ministério da Economia – que assumiu a agenda de impacto com a mudança de gestão no governo federal.

O gestor público destacou os resultados da Enimpacto, que completou um ano em dezembro de 2018. Para ele, apesar dos desafios impostos pelas mudanças e descontinuidades entre uma gestão e outra, alguns marcos atestam o acerto da agenda e colocam o Brasil em posição de destaque no tema.

GovTech: desafios e oportunidades

Soluções tecnológicas são fundamentais para a gestão pública avançar nesta agenda, apontam os especialistas do setor. “GovTech é um conceito que coloca tecnologia a serviço do governo como melhor ferramenta para promover transformação. Sem apostar em tecnologia, o poder público não vai sair do século 19, embora muita gente ainda não tenha acesso a saneamento básico”, observou Guilherme Dominguez, diretor do BrazilLAB.

Como hub de inovação que acelera soluções e conecta empreendedores com o poder público, o BrazilLAB apoia o ecossistema de empreendedorismo de impacto e incentiva a inovação na gestão pública. Já são mais de 50 startups aceleradas nas áreas de educação, saúde e meio ambiente.

Para o diretor, é importante que a sociedade civil fomente a pauta da inovação junto ao poder público, de fora para dentro. “Nós temos um desafio cultural. Precisamos cobrar do governo a melhoria dos serviços públicos e também propor bons projetos e soluções e buscar uma maior interação por parte dos administradores”, defendeu.

Empreender para o poder público

Um dos criadores do SmartSíndico – aplicativo para gestão de condomínios de habitações de interesse social, como os empreendimentos dos programas Minha Casa Minha Vida, CDHU e Cohab –, Guilherme Ribeiro compartilhou com o grupo de acadêmicos presente os desafios de empreender para o setor público.

Tendo desenvolvido o modelo de gestão para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o implementado em milhares de unidades, além de treinado técnicos e moradores para a prefeitura de São Paulo e de São Bernardo do Campo, o empreendedor aponta o que considera o maior desafio da empreitada: ser contratado. “Existe um lado político no governo. Cada vez que muda a gestão, a gente tem que começar do zero. Eu já perdi a conta de quantas vezes fui a reuniões para apresentar o nosso trabalho e o aplicativo”, comentou.

Além disso, desafios relacionados a comunicação também atrapalham na hora de empreender para o setor. Entre as dificuldades está o fato de o Brasil ter quase seis mil prefeituras, fora os estados e o governo federal, o que torna inviável para  as startups ter um mapeamento concreto dos órgãos que precisam dos serviços, assim como o próprio governo tem dificuldade de encontrar as soluções disponíveis.

O papel da academia

Dirigindo-se a Rede de Professores do Programa Academia ICE, Lucas elencou uma série de medidas que, segundo ele, podem ser incorporadas pelas Instituições de Ensino Superior  para promover o avanço do setor dos negócios de impacto. Formação de mão de obra qualificada para o setor, advocacy junto ao setor público, incubação e aceleração de novos negócios e startups e avaliação de impacto estão entre elas.

Guilherme alertou sobre a necessidade de modernização do modelo de contratação do setor que é obsoleto e afasta empreendedores de sua missão. “Muitas startups estão deixando de vender para o governo devido a este modelo e isso é ruim porque o impacto vai ser muito menor”, comentou.



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial