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Impacta Mais 2021: Recuperação inclusiva e regenerativa com investimentos e negócios de impacto

Na quarta edição do Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto, investidores, dinamizadores, empreendedores e lideranças empresariais discutiram o papel do ecossistema de impacto para a construção do mundo que queremos.

Os desafios para a recuperação do Brasil e a contribuição dos investimentos e negócios de impacto para a construção de uma economia que coloque as pessoas e o planeta no centro das decisões de negócios e investimentos.

Esse foi o pano de fundo dos debates realizados durante o Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto – Impacta Mais 2021.

Considerado o maior evento do setor, a iniciativa é uma realização do ICE e do Impact HUB e acontece bianualmente reunindo diferentes perspectivas para debater questões estruturais do ecossistema brasileiro de investimentos e negócios de impacto.

Com o tema “Construindo uma nova economia com impacto socioambiental positivo”, a programação de três dias (8, 9 e 10 de junho) reuniu nomes nacionais e internacionais do setor em painéis, workshopse diversas oportunidades de networking e troca entre os 1.400 participantes do evento.

No primeiro dia, as sessões centraram-se na discussão sobre o papel que os investimentos e negócios de impacto têm em temas como educação, saúde, meio ambiente, combate ao racismo estrutural, desigualdade e  moradia digna. No segundo dia, as sessões dedicaram-se a construir visões sobre o ecossistema de impacto a partir dos seguintes temas: tecnologia, produtos financeiros, ecossistemas locais, governo e apoio às organizações dinamizadoras.

Um novo e melhor normal exige um novo modelo de desenvolvimento

No painel de abertura, Ricardo Sennes,  comentarista de economia e política do Jornal da Cultura, mediou a conversa entre quatro lideranças femininas sobre o papel dos setores público e privado em uma recuperação econômica e social com inclusão, equidade e regeneração.

Para Ana Toni, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), a pandemia agravou dois principais desafios do país (desigualdades e mudanças climáticas), que precisam ser enfrentados conjuntamente a partir da valorização da ciência, da cooperação e da solidariedade.

“Temos um paradoxo: enquanto vemos no mundo uma transição pautada pelo ESG com inúmeras oportunidades, temos que lidar com um Brasil do século passado, com retrocessos sociais e ambientais. Então, precisamos resistir ao desmonte das políticas públicas em setores como educação, meio ambiente e saúde e, ao mesmo tempo, construir o futuro que queremos.”

Como oportunidade para o ecossistema de investimentos e negócios de impacto, a especialista aponta a biodiversidade brasileira.

“Temos muitos ativos ambientais e temos que ter muito orgulho disso, mas também saber explorar de maneira positiva, olhando para os tipos de negócios que poderiam se beneficiar e impactar positivamente. Se assumirmos nossa soberania verde, estamos mais do que qualificados para enfrentar essas duas crises: climática e social.”

Patricia Ellen, secretária de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do estado de São Paulo, acredita que o poder público tem um papel fundamental na articulação com outros setores, como o das organizações da sociedade civil.

“Com a pandemia, a velocidade com que precisamos fazer as coisas acontecerem é muito maior e essas organizações conhecem as demandas das comunidades e, por isso, esse trabalho conjunto é muito importante.”

Olhar sistêmico

Para Cida Bento, coordenadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), o papel dos investimentos e negócios de impacto passa por um olhar sistêmico para os principais desafios atuais.

“Não há como apoiar a permanência de jovens negros na universidade ou a ampliação da capacitação em tecnologia sem pensar que a vida desses jovens está sendo violada o tempo interiro. Se há um número grande de jovens negros nas universidades federais, não dá para sucatear a universidade pública. Mais de 80% da população negra utiliza o SUS [Sistema Único de Saúde]. Logo, o sucateamento do SUS impacta a atuação dessas pessoas no mercado de trabalho. O desmonte de políticas públicas intensifica a vulnerabilidade desse segmento que nós queremos fortalecer para promover um desenvolvimento sustentável”, explica.

Cida também falou sobre a necessidade de fortalecer o ecossistema de investimentos e negócios de impacto a partir de uma lógica diferente da atual.

“Pensando em escala, temos que entrar em territórios que hoje só têm a presença da polícia e da arma. O homem branco de determinada classe social tem uma solução que não necessariamente atende àquele segmento. Um olhar crítico nesse sentido é importante para que a gente não entre no contexto dos investimentos e negócios de impacto como pessoas brancas pintadas de negras.”

Ana Maria Diniz, fundadora do Instituto Península, por sua vez, salienta o papel do setor empresarial e defende que a pandemia trouxe uma nova consciência.

“No caso dos empresários, vimos uma catarse de solidariedade como nunca antes e esse é um movimento que veio para ficar. O ESG não é mais um modismo. As empresas que não se adequarem, vão acabar sendo expurgadas do ambiente de negócios”, alerta.

Investimento de Impacto e ESG

Frente ao crescimento da agenda ESG no Brasil e no mundo e à evolução do campo de investimentos de impacto – que passou de US$ 343 milhões para US$ 785 milhões nos últimos dois anos -, novas oportunidades têm surgido para o avanço da agenda de impacto socioambiental no país. A programação do Fórum abriu espaço em sua programação para refletir sobre as convergências e diferenças entre ESG e Investimentos de Impacto.

Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI Finanças do Bem, trouxe um panorama histórico. “O ESG nasceu como ISR [Investimento Socialmente Responsável] há mais de um século por meio de investidores religiosos e a partir dos anos 60 se profissionalizou. A grande virada do conceito no início dos anos 2000 foi quando o termo começou a ser usado no campo das finanças, onde houve o entendimento de que ele também faz parte do ROI [Retorno sobre o Investimento, na sigla em inglês] das empresas.”

Para Daniel Izzo, co-fundador e CEO da Vox Capital, o que une ambos é o olhar que vai além do retorno financeiro. “O ESG olha para como as coisas são feitas, a responsabilidade da empresa na entrega do produto ou serviço, enquanto o investimento de impacto avalia se o produto ou serviço está gerando impacto positivo na sociedade. Hoje não podemos prescindir de nenhuma das duas coisas. É um caminho sem volta.”

Apontando tendências, Patrícia Genelhú, head de Investimentos Sustentáveis e Impacto do BTG Pactual, acredita que o futuro é sair do mercado de nicho e ir para o mainstream para trazer maior escalabilidade para o Investimento de Impacto. “É preciso integrar à cultura corporativa e levar investimentos de impacto como parte dos produtos desenvolvidos, conversando com os critérios ESG e com o crescimento do tema.”

O papel do poder público

A Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO) também foi tema durante o Fórum. Considerada um marco para o ecossistema brasieiro, a política tem inspirado legislações estaduais.

Durante painel dedicado ao papel do poder público para o fomento da agenda, os debatedores compartilharam os aprendizados e avanços da experiência internacional e nacional e a influência na atuação de investidores e empreendedores de impacto.

O ex-ministro de Londres Nick Hurd trouxe sua perspectiva internacional e experiência. “Fizemos muitas intervenções para aumentar o capital de pequenos negócios e criamos um pipeline para os investidores. Erramos muito, mas tivemos sucesso em construir um novo mercado de investimento social que cresceu sete vezes em uma década”, celebra.

Para o especialista, é fundamental um governo que entenda e reconheça a importância da economia social. “Sem essa compreensão, fica muito difícil seguir essa conversa. Fico feliz que em alguns governos no Brasil exista essa compreensão.”

Antenor Roberto, vice-governador do Rio Grande do Norte, pautou o momento desafiador que vive o Brasil. “O governo federal se afasta muito do olhar que temos aqui em nosso estado, principalmente em relação às desigualdades. Hoje, o fomento a negócios mais sustentáveis vem a partir da nossa lei estadual, que conecta diversas iniciativas público-privadas.”

Na avaliação de Geiza Rocha, secretária-geral do Fórum de Desenvolvimento Estratégico da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), não houve muitos avanços no comitê estadual de investimento em negócios de impacto por conta das mudanças no governo.

“O desafio permanente é formalizar o comitê para avançar nessa temática e também fazer algumas iniciativas entenderem que são negócios de impacto.”

Carla Panisset, coordenadora do Comunidade Sebrae-RJ, por sua vez, apontou os desafios para o crescimento do campo.

“Percebemos nos empreendedores de impacto um perfil iniciante e temos a preocupação de fortalecer esses negócios e gerar mais ofertas de capital, sobretudo para os pequenos negócios da periferia, de grupos vulnerabilizados. Para isso, precisamos de um ambiente regulatório mais organizado e sedimentado. Uma política robusta nacional poderia fortalecer muito o campo.”

Uma concepção redistributiva e regenerativa para os investimentos e negócios

Fechando a programação do Fórum, a última mesa buscou retomar alguns dos temas discutidos em torno da visão de uma nova economia baseada na construção de um espaço justo e seguro para a humanidade.

Para isso, contou com a presença de Carlota Sanz Ruiz, cofundadora do Doughnut Economics Action Lab (DEAL), organização dedicada a criar economias do século 21 que sejam regenerativas e distributivas, de modo que possam atender às necessidades de todas as pessoas dentro dos limites planetários.

Alertando para a necessidade de mudanças nas bases do pensamento econômico, a economista propõe um novo conceito para cocriar um mundo em que as pessoas e o planeta possam prosperar.

“A pandemia não apenas aprofundou crises econômicas, desigualdades e o colapso climático, mas também nos mostrou como estamos interconectados com o resto do mundo e o planeta. Essas crises resultam dos sistemas criados pelos seres humanos. Precisamos de novas soluções, pois a teoria econômica do século passado não aborda os desafios atuais. Precisamos de uma nova visão para o século 21.”

Para Carlota, a resposta está no desenho dos negócios. “No século 20, as empresas se perguntavam quanto em valor financeiro poderiam extrair. Hoje, a pergunta tem que ser: quantos benefícios podemos gerar no desenho deste negócio? O que ele significa para as pessoas, o planeta, os sócios e clientes?”, defende.

Comunidade Impacta Mais

Para dar continuidade às conexões do campo de impacto promovidas pelo Fórum Impacta Mais, ICE e Impact Hub anunciaram a criação da comunidade online Impacta Mais.

Nesse espaço virtual, indivíduos e organizações de diversas áreas, de todas as regiões do país, podem participar de jornadas de aprendizagens, eventos e atividades para  networking e troca de experiências. Os vídeos dos painéis da quarta edição do 4º Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto Impacta Mais podem ser encontrados lá. Para saber mais, acesse a comunidade.


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ICE – Instituto de Cidadania Empresarial