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Impacta Mais ON conta com a participação de Ronald Cohen e Charly Kleissner na discussão sobre investimento de impacto

Versão online do Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto reuniu investidores e especialistas para debater desafios e relevância do investimento de impacto no pós-Covid-19.

Entre os objetivos do Impacta Mais ON, versão online do Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto, está o debate sobre como a agenda de impacto pode contribuir para uma recuperação econômica com menos desigualdade, tendo as pessoas e o planeta no centro das decisões sobre investir e empreender. Por isso, parte da programação foi dedicada a trajetória de investidores de impacto e a discussões sobre como instituições brasileiras estão atuando no setor. Foi evidenciada também a relação entre a crise ocasionada pela Covid-19 e a necessidade de ampliar os investimentos de impacto. 

O grande destaque do primeiro dia foi a participação de Sir Ronald Cohen, presidente do conselho do Global Steering Group for Impact Investment (GSG), organização com 32 países membros, entre eles o Brasil. Durante o painel de abertura ‘Qual é a contribuição dos investimentos e negócios de impacto para novos paradigmas econômicos?’, o especialista, um dos maiores nomes no campo de investimentos de impacto, afirmou que a crise ocasionada pela pandemia de Covid-19 traz uma oportunidade histórica de colocar o impacto no centro das decisões do sistema econômico. Beto Scretas, do ICE, e Jéssica Rios, da Vox Capital, conduziram a conversa.

Segundo Sir Ronald, o novo coronavírus está reorganizando crenças e hábitos e levantando questionamentos relacionados ao capitalismo e à democracia. Para ele, a situação atual se assemelha ao cenário da Crise de 1929. Depois da quebra da bolsa de valores, o governo norte-americano determinou a existência de uma contabilidade padronizada para as empresas, inclusive com auditorias externas. 

“Os investidores perceberam então que investiam, mas não entendiam com clareza quais eram seus lucros. A Covid-19 nos impõe uma encruzilhada semelhante: desta vez, investidores que já canalizaram 30 trilhões de dólares questionam ‘estamos investindo em empresas baseados somente no lucro, sem olhar para as métricas de impacto que geram?’”, compara.

Além de defender que o impacto deve guiar decisões de investimentos e precisa ser medido, ele defende a incorporação das metas de impacto nas informações contábeis das empresas como forma de tornar acessível essa informação na tomada de decisão dos investidores e executivos. Cohen citou um estudo da Harvard Business School que comparou valores em danos ambientais de empresas multinacionais de petróleo e gás, na casa de bilhões de dólares, para exemplificar como uma contabilidade padronizada e números auditados é necessária para garantir aos investidores transparência. “Vamos ter desafios e iremos superá-los para refinar o sistema e, daqui algumas décadas, teremos um sistema muito sofisticado [de medição].” 

Outros efeitos da crise atual, como desemprego, quebra de diversas empresas e o impacto nas populações mais vulneráveis, podem, segundo Cohen, ser endereçados com a mentalidade de impacto positivo, em detrimento do paradigma de risco e retorno, que, apesar de ter guiado a sociedade por anos, não funciona mais. “Precisamos encorajar a criação de empresas que impactam [positivamente], startups com capacidade de criar empregos, riqueza e também resolver problemas de saúde, educação e muitos outros. O Brasil tem uma vantagem estratégica que é a existência de fundos bancários que podem pagar títulos de impacto no lugar de governos”, exemplificou. 

 

A jornada do investidor (100%) de impacto 

“O que quer dizer ser rico? Você fica rico e a partir daí, o que você faz de diferente? Você tem riqueza para gerar ainda mais riqueza? Minha mulher, Lisa, e eu, acreditamos que ser rico significa causar impacto positivo na humanidade”. O austríaco Charly Kleissner, que fez carreira e fortuna no Vale do Silício, nos Estados Unidos, compartilhou com os participantes do segundo dia do Impacta Mais On as inquietações que levaram ele e sua esposa a concentrar seus recursos como investidores em investimentos de impacto. 

Durante o painel ‘Diálogos sobre empreender e investir com propósito: a jornada pessoal para investir com impacto’, mediado por Pablo Handl (Impact Hub São Paulo), Kleissner conta que, no início, ao mesmo tempo em que questionaram seu consultor financeiro sobre como alinhar impacto ao seu patrimônio, ele e Lisa começaram a encontrar pontos de discordância com a forma com que a filantropia norte-americana era realizada. “O trabalho de alguns filantropos, de simplesmente doar o dinheiro sem algum tipo de parceria do outro lado, é algo um pouco antiquado. Não existia uma observação sobre o que acontece na outra ponta e nós sabemos que desafios e questões sistêmicas não são resolvidos com esse tipo de investimento. É importante atacar a questão da desigualdade e acelerar a forma com que isso pode ser diminuído”, exemplifica o investidor. 

Segundo Kleissner, a decisão de investir com impacto está conectada ao perfil com o qual ele e a mulher se identificam: o de pensadores sistêmicos que consideram a necessidade de agir para ajudar a promover mudanças no sistema vigente, onde a questão da sustentabilidade, por exemplo, não vem sendo tratada da forma adequada.

Fundadores da KL Felicitas Foundation, uma organização que acredita que a abordagem a partir da base é mais bem sucedida e sustentável do que abordagens de cima para baixo, o casal tem 100% do seu patrimônio voltado para impacto. Ainda assim, as preocupações com a parte financeira para eles também são válidas e importantes. Charly cita o próprio exemplo da Fundação para defender que o retorno de mercado, alcançado durante dez anos pelo portfólio da Felicitas, é algo possível. 

“A visão sobre a taxa de retorno de mercado deve ser reenquadrada, entretanto, para retorno apropriado, o que vai depender do tipo de impacto que o investidor pretende causar”, aponta. 

Charly defendeu, ainda, que investimento de impacto é uma possibilidade disponível para todas as pessoas interessadas no tema, independente de quanto se dispõe para investir. “Investimentos de milhares de dólares, euros e reais são feitos por plataformas de crowdfunding [financiamento coletivo]. Então, com 25 dólares, você consegue contribuir para uma iniciativa de investimento de impacto da mesma forma que pessoas muito ricas.”

Com a chegada da Covid-19, o investidor vê crescer sua expectativa de que famílias e pessoas com grandes patrimônios passem a olhar e a apoiar suas regiões e comunidades. 

 

Compromisso com impacto 

O assunto investimentos marcados por impacto e intencionalidade também foi abordado em outros momentos do fórum online, como na sessão ‘Compromisso de investidores e negócios com impacto’, realizada simultaneamente a outras quatro salas. Com a participação de Mariana Oiticica, líder da área de wealth planning do BTG Pactual, Daniela Arantes, analista da área de mercado de capitais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e Daniel Brandão, diretor executivo da Move Social, o debate foi mediado por Gilberto Ribeiro, da Vox Capital. 

Mariana compartilhou que, apesar de já ser debatido há algum tempo, o tema de investimentos de impacto surgiu com mais força em 2018 e 2019 e, por isso, o BTG criou um grupo com representantes de diversas áreas para realizar um estudo de caso sobre como funcionaria o mercado de impacto na América Latina. “Nós percebemos que há muitas questões que podemos resolver de forma construtiva e criativa. As muitas oportunidades do ponto de vista social e ambiental não são exploradas da forma que poderiam ser.”

A criação de um plano para estruturação da área de investimento de impacto do banco partiu de um viés construtivo, com o objetivo de mostrar que é possível desenvolver produtos financeiros que irão resolver desafios importantes e que, ao mesmo tempo, há consumidores interessados nesses produtos. “Queremos oferecer aos investidores a mesma rentabilidade que teriam em produtos tradicionais porque, além dos convertidos, queremos atingir também o investidor padrão”, afirmou Mariana.  

A especialista citou, ainda, que o assunto já é amplamente debatido pela segunda geração das famílias com as quais trabalha e, no ano passado, duas grandes famílias brasileiras adicionaram o impacto às  métricas de risco e retorno analisadas nos investimentos. 

Daniela também compartilhou a experiência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social no tema. Para ela, por ser um banco de desenvolvimento, o papel da instituição vai muito além do financeiro e conta também com uma missão de indução junto aos atores com os quais dialoga. Ela exemplifica: a última chamada de gestores de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) do BNDES, voltada a micro, pequenas e médias empresas, colocou como critério, pela primeira vez, que os gestores inscritos apresentassem uma estratégia de impacto e metodologia para mensurá-lo. “Com a análise das propostas, percebemos que vários gestores sequer tinham ouvido falar sobre impacto ou refletido sobre o impacto de suas ações. Colocar isso como critério foi efetivo para essa indução, pois eles precisaram pensar para apresentar uma proposta ao banco. Conseguimos plantar uma semente nesses gestores.” 

Além disso, a analista também pontuou que, apesar de essa ser uma experiência muito recente, o banco já atua há algum tempo estimulando e endereçando o impacto. “Tínhamos uma linha de investimento para financiamentos acima de R$ 100 milhões que, de alguma forma, tentávamos fazer com que as empresas contratassem uma linha de subcrédito para trabalhar o impacto socioambiental no território onde atuam. Ou seja, era uma forma de falar: ‘empresa, queremos que você faça algo além da responsabilidade socioambiental e contribua com a população do território. Não queremos apenas o trivial’”, afirmou Daniela. 

Daniel Brandão, por sua vez, trouxe a questão das formas de avaliar o impacto gerado. Para isso, discutiu dois dos três pilares – intenção, mensuração e contribuição – do conceito de investimento de impacto. Quando o assunto é a intenção, o diretor da Move Social reforça que é um movimento positivo a declaração sobre as intenções e concepções de impacto, uma vez que posicionamentos mais claros podem servir como método de escolha para investidores. Quanto à mensuração, Daniel defende que essa deve ser a agenda dos próximos cinco anos. 

“Quando entramos no campo, estávamos amarrados e esperando um padrão de métrica e mensuração. Essa agenda avançou, mas não temos uma metodologia única. Precisamos construir casos de mensuração no Brasil, que vão criar repertório crítico e analítico para que possamos ter avanços nos erros e acertos e, assim, qualificar o campo. Temos o famoso venture capital. Agora, precisamos falar em venture evaluation. Precisamos correr risco em avaliação. É algo que vai fomentar um ambiente interessante”, apontou.

 

Para ver e rever

Você pode assistir a participação de Ronald Cohen a partir de 1h20 neste link

Confira a participação de Charly Kleissner (KL Felicitas Foundation) a partir de 41 minutos neste link

A sessão ‘Compromisso de investidores e negócios com impacto’ pode ser conferida a partir de 1h25 neste link

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ICE – Instituto de Cidadania Empresarial