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Na base, da base e para a base

Segunda edição do Fórum de Negócios e Impacto da Periferia promovido pela ANIP – Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia – debateu desafios e potências de fazer negócios com impacto social na quebrada

Por Leonardo Nunes com edição de Lysa Ribeiro (ICE)

A Paróquia Santos Mártires, ponto de encontro de movimentos sociais no Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, foi o local escolhido para receber o 2º Fórum de Negócios de Impacto da Periferia, organizado pela Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (ANIP) – braço da A Banca, uma produtora sociocultural de impacto. O evento realizado no dia 8 de agosto reuniu empreendedores e empreendedoras, organizações apoiadoras e moradores da região para rodas de conversa e apresentações sobre o que é empreender na e para a periferia, negócios de impacto e Economia Criativa.

Na mesa de abertura do dia intitulada “Potências da Ponte Pra Cá” – uma referência à canção do Racionais MC’s – Edgard Barki (FGVcenn), DJ Bola (A Banca) e Maure Pessanha (Artemisia) compartilharam  os aprendizados com as três turmas de aceleração de negócios da ANIP, iniciativa na qual suas organizações são parceiras. Maure destacou que trabalhar com empreendedores de periferia mudou seu pensamento sobre como tocar um negócio: “Aos (negócios) acelerados pela Artemisia, falamos sobre a importância de ter dedicação total ao projeto. Aqui (na periferia) essa lógica muda, porque o mesmo empreendedor que toca seu negócio aqui, também trabalha oito horas dentro de alguma empresa”.

Sobre os desafios, Marcelo Rocha, o DJ Bola, destacou que administrar o tempo até conseguir “viver só do sonho” e saber organizar o fluxo de dinheiro, conhecendo os meses nos quais não há vendas, são dificuldades comuns para quem começa a empreender na periferia. Ele criticou ainda a falta de formação para o empreendedorismo na educação pública, nas escolas técnicas, de onde o jovem de baixa renda sai destinado a ser mão de obra assalariada.

Quanto a ser um negócio social, DJ Bola relembrou que nem sempre viu a A Banca assim: “Só em 2007 me dei conta que o fazemos aqui é um negócio e como qualquer outro, precisamos entender como funciona e fazê-lo rodar. Por isso existe a Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia – ANIP, somos potência!”

Barki comentou a importância de encurtar os espaços entre investidor e investido, mas ressaltou que “As empresas antes de apenas investir na periferia, precisam se conectar com ela e entendê-la no seu impacto social, cultural e financeiro”. Maure relembrou que o surgimento da ANIP atraiu muita atenção da imprensa e de investidores, mas que o interesse veio acompanhado de muita pressão por resultados. “É preciso entender que o apoio e o investimento têm que ser pacientes com o desenvolvimento dos empreendedores. A visão é de longo prazo”, reforçou.

Criatividade como negócio

Partes da manhã e da tarde do 2º Fórum de Negócios de Impacto da Periferia foram dedicadas a temas específicos, reunindo convidados especiais  e participantes. Um dos assuntos discutidos foi Economia Criativa, com participação de Martin Dowle (British Council) e João Guedes (Emperifa), e mediação da especialista Ana Coelho.

De acordo com o Sebrae, Economia Criativa é o conjunto de negócios baseados no capital intelectual e cultural e na criatividade que gera valor econômico, em quatro grandes áreas: Consumo (design, arquitetura, moda e publicidade); Mídias (editorial e audiovisual); Cultura (patrimônio material, artes, música, artes cênicas e expressões culturais); e Tecnologia (P&D, biotecnologia e TIC).

Com dados do relatório A Economia Criativa Brasileira, elaborado no âmbito de uma parceria entre Sebrae e British Council, Martin destacou a importância econômica do setor: “Um campo que teve 70% de crescimento na última década, merece maior respeito e conhecimento por todos”.

João Guedes, pela experiência com a Emperifa – negócio de impacto que fortalece a cultura empreendedora na Zona Leste, defendeu a ideia de que para aumentar a trabalhabilidade (capacidade de transformar habilidades em trabalho) é preciso combater a falta de informação sobre empreendedorismo. “O movimento de startups é  forte nas regiões centrais, não chega ao jovem da favela. Ele – nesse momento – está escolhendo entre o crime ou estudar, é preciso capacitar a juventude das margens e dar outra opção”, disse João. E acrescentou, citando um exemplo sobre dificuldades dos empreendedores como quem convive: “Nas oficinas (do Emperifa) enxergamos bastante dificuldade por parte dos empreendedores em precificar (definir o preço do produto ou serviço) ) daquilo que fazem no dia a dia”..

Ana lembrou que quando o quesito é sevirologia (se virar com aquilo que se tem) a própria periferia é uma fonte da criatividade. E chamou atenção sobre a formação do capital social nas periferias: “Muitos (jovens e adultos) querem cruzar a ponte (ir para regiões centrais da cidade), arrumar um trabalho e não voltar mais. É preciso formar e fomentar esse capital (de relações) para aqueles que foram embora, possam voltar e ajudar os próximos. Fazer circular é a ideia”.

Dias de luta, dias de glória

Nos intervalos entre blocos, alguns NIPs – negócios acelerados pela ANIP – apresentam no palco principal altos e baixos de sua jornada empreendedora. Michelle Fernandes – criadora da marca Boutique de Krioula e moradora do Capão Redondo – contou como começou a produzir turbantes há sete anos atrás com 150 reais. Sua loja online vende hoje esse e outros acessórios para todo o Brasil, e países como Suécia e Angola, com o propósito de elevar a autoestima das mulheres negras e valorizar a cultura afro-brasileira. Recifavela e Kitanda das Minas foram outros negócios que apresentaram seus cases para inspirar o público presente.

Empreender: pontes e abismos

No último bloco do evento, Luis Fernando Guggenberger (Instituto Vedacit), Adriana Barbosa (Feira Preta), Ítala Erta (Vale do Dendê) e Luís Coelho (Empreende Aí)  compartilharam suas experiências com   pontes e abismos no caminho do empreendedor da base.

Direto da Bahia, Ítala da Vale do Dendê – aceleradora do ecossistema de inovação em Salvador – chegou destacando a importância de discutir e superar gargalos internos, como a falta de crença na potência da ideia e no propósito do negócio, e externos, como o peso de impostos e taxas.

Luís Coelho contou sobre a dificuldade de ter seu negócio lido como um negócio pelas empresas: “Por trabalhar com a periferia, quem me recepcionava era o departamento de responsabilidade social. Eu queria trocar uma ideia com o pessoal do marketing ou comercial”.

Adriana ressaltou que as partes envolvidas precisam fazer o dever de casa. Se por um lado empreendedores precisam desenhar boas propostas; conhecer seus limites de produção e entrega de resultados; e hackear os códigos do ecossistema empreendedor, do outro lado os investidores e empresas interessadas precisam aprender quem são esses empreendedores.  “Uma resposta (para explicar a falta de conexão) talvez seja uma dificuldade (das empresas) de entender que o negócio social também precisa de dinheiro para gerar impacto numa realidade”. cogitou Adriana. 

Luis Fernando, como representante de um instituto que faz investimentos no campo de negócios de impacto, celebrou as potências da periferia como – novamente – a sevirologia e o jeito de criar ressignificando instrumentos e espaços.

A Zona Leste e o um fórum para chamar de seu

Alguns dias depois do fórum na Zona Sul, foi a vez da Zona Leste abrigar outro evento inteiramente dedicado aos Negócios de Impacto da Periferia.  No Galpão ZL, localizado no distrito de São Miguel Paulista, cerca de 200 pessoas participaram de mesas e rodas de conversa com diferentes atores do ecossistema de impacto, trazendo a periferia como protagonista de ações e mudanças em seu entorno. Confira a cobertura feita pelo Portal Aupa.

Foto: A Banca/ANIP



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial