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GSG Summit: tendências, reflexões e as conexões com a agenda brasileira

“Nada menos que uma revolução nos permitirá alcançar soluções em uma escala que possa melhorar bilhões de vidas e nosso planeta”. Com essas palavras o Chairman do Global Steering Group for Impact Investing (GSG), Sir Ronald Cohen, lançou o manifesto On Impact – A Guide to the Impact Revolution, durante o GSG Summit 2018.

O alerta é também um convite para que líderes em empresas, governos e na sociedade civil reconheçam as falhas do capitalismo em sua forma atual que não está, segundo Sir Ronald, “cumprindo sua promessa de compartilhar a prosperidade e trazer progresso social para todos”.

O evento aconteceu em outubro, na cidade de Delhi, na Índia, e reuniu cerca de mil participantes de 54 países (400 a mais do que a edição anterior) Trata-se de um dos principais encontros da área de investimento e negócios de impacto, apontando tendências e discussões urgentes para a agenda atual. O anúncio do lançamento de fundos voltados a incentivar negócios e finanças de impacto na Índia, na África e no Oriente Médio e do início de uma mobilização para consolidar um fundo de fundos também para a América Latina foi um dos maiores destaques dessa edição.

De um movimento nascido em 2015 com 13 países, o GSG tornou-se uma organização com sede em Londres, reunindo atualmente 21 membros – com representantes dos cinco continentes – e com a perspectiva de que nove outros países entrem na organização até o final de 2019.

O Brasil faz parte do GSG desde 2015. Nesse evento, a delegação brasileira contou com representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Itaú, Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Fundação Tide Setubal, Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex), Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) e Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).

“O GSG é como uma espécie de ‘Nações Unidas’ para o impacto”, avalia Beto Scretas, do ICE. Essa enorme força se fez valer mais uma vez durante o Summit 2018, com a proposta de inclusão e aprofundamento de temáticas que até então tinham uma relação ainda incipiente com o campo de investimento de impacto. Como os temas ligados ao meio ambiente, por exemplo. Al Gore, ex-vice-presidente norte-americano, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2007 por seu documentário sobre mudança climática, foi, inclusive, um dos palestrantes do encontro do GSG. Junto com a mensagem sobre como mudanças climáticas vão afetar mais duramente as populações de baixa renda, Al Gore compartilhou sua experiência como co-criador de um sustainability-focused fund com David Blood, ex head do Goldman Sachs. Hoje com US$ 19 bilhões em ativos e retorno de 17,5% (nos últimos 3 anos), o fundo investe em produtos e serviços de baixo carbono com benefício para saúde e sociedade.

Outras agendas abordadas durante o encontro incluíram o papel das empresas no campo e como elas podem se engajar ao tema, além da presença cada vez mais relevante das fundações e institutos privados. O desenvolvimento de políticas públicas por governos para incentivar e fomentar negócios de impacto – tema no qual o Brasil é destaque pelo pioneirismo e inovação trazidos pela Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO) – também começa a estar mais presente entre os países integrantes do GSG.

Para Beto Scretas, o movimento global pelos negócios de impacto ganha cada vez mais força na medida em que enxerga os movimentos de cada país como lideranças importantes para essa alimentação global e para o avanço da agenda: “Essa conexão global-local é muito forte, proporcionando troca de experiências, aprendizado e sinergia. Temos interlocutores fortes implementando uma agenda de impacto nos cinco continentes, todos ligados a este movimento, guardadas as particularidades de cada um.”

Reunimos aqui os principais pontos de destaque e tendências do GSG Summit, apontados por alguns integrantes da delegação brasileira.

Políticas públicas no radar

Para Marcos Vinicius Souza, ex-secretário de Inovação e Novos Negócios do MDIC e membro do Conselho da Aliança pelos Negócios e Investimentos de Impacto, um dos pontos de destaque do encontro do GSG foi o avanço do envolvimento de governos na construção de políticas públicas, área em que o Brasil é pioneiro com a ENIMPACTO (Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto).

Em 2017, Sir Ronald Cohen avaliava que o setor que menos tinha se desenvolvido nos últimos anos em termos de negócios de impacto era o de governos. Em 2018, segundo percepção de Marcos, vários governos entraram nesse campo com mais robustez, e novos países passaram a integrar também o GSG.

 “O Brasil foi um dos primeiros países a elaborar uma política pública para negócios de impacto abrangente. Temos quarto grandes áreas na ENIMPACTO: aumentar o investimento de capital em negócios de impacto no Brasil; aumentar o número de negócios de impacto; fortalecer instituições intermediárias como aceleradoras, incubadoras e universidades; e melhorar o ambiente regulatório para o campo dos negócios de impacto no país. As políticas de outros países costumam focar em apenas um aspecto.” explica Marcos. A ENIMPACTO é reconhecida não só pelo GSG, mas também pelo Fórum Econômico Mundial, pelo governo britânico e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) como referência e benchmark mundial em políticas públicas para negócios de impacto, segundo ele.

Outro ponto destacado por Marcos é aumento do emprego da modalidade de pagamento por performance por governos: contratam serviços de negócios de impacto e pagam pelos resultados e qualidade final entregues por esses serviços.

O papel do Investimento Social Privado

 Greta Salvi, do Fundo Zona Leste Sustentável, destaca que no mundo, e em especial na Índia, onde foi realizado o encontro do GSG, é notável o papel que institutos e fundações desempenham no campo nos negócios de impacto. “Fiquei bastante surpresa ao ver como grandes fundações internacionais estão de fato fazendo investimento em negócios de impacto na Índia, com volume significativo de recursos e com retorno. No Brasil as fundações ainda estão experimentando esse tipo de investimento, aprendendo como se faz. Existe ainda muita dúvida. Foi uma grande inspiração ver que esse de fato é um dos caminhos para trazer soluções para fortalecer o ecossistema”.

Medir e comparar é preciso

 Ao longo do encontro do GSG, Sir Ronald Cohen afirmou a necessidade de “quebrar o mito de que impacto não pode ser medido”. O desafio é criar uma metodologia que considere um quadro de análise e permita comparar empresas por sua performance de impacto. “Enquanto não conseguirmos medir e comparar, será impossível convencer investidores a trazer grandes volumes de recursos.”

A proposta apresentada no encontro foi acelerar o trabalho do Impact Management Program para criar metodologias que possibilitem isso. A meta é que todo negócio, seja de impacto ou não, tenha, ao lado de seu balanço financeiro, um balanço com performance socioambiental. Com investimento de recursos próprios, o presidente do GSG vai financiar o trabalho de pesquisadores de Harvard, juntamente com atores de campo, para delimitar princípios gerais de impacto que facilitem o processo de mensuração.

 Brasil ‘bem na foto’

 Greta Salvi também destaca que ficou surpresa com a participação do Brasil no desenvolvimento do campo de investimento e negócios de impacto. “É muito bom perceber que aqui no Brasil, pelo trabalho que a Aliança pelos Negócios e Investimentos de Impacto tem desenvolvido, promovendo a articulação de diferentes atores, pela ENIMPACTO e pelo trabalho do ICE, estamos ‘bem na foto’. Em um cenário de muitas dificuldades econômicas, políticas e sociais no mundo, essa é uma temática que pode trazer soluções para vários problemas, e vejo que no Brasil, embora internamente muitas vezes não tenhamos essa percepção, esse trabalho está sendo muito bem liderado e tem avançado bastante”, conclui.

Comunicar sempre; comunicar bem.

 Ainda há a percepção de que o tema de investimentos e negócios de impacto é pouco conhecido e precisa ser melhor comunicado. Durante o Summit foi lançada uma campanha de marketing digital, a #ImpactRevolution. No site onimpactnow.org está disponível para download a publicação On Impact – A Guide to the Impact Revolution e outros conteúdos para que interessados no tema aumentem seu conhecimento e multipliquem seu alcance.

Foto: GSG Impact Summit 2018



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial