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Professores discutem desafios do empreendedorismo na sala de aula

“Um dos maiores desafios do trabalho em sala de aula é fazer com que os alunos olhem a sociedade e consigam entender novos padrões e conceitos, e a partir desses conceitos  identificar oportunidades.” Esse foi um dos pontos centrais da exposição do professor Marcelo Nakagawa, do Insper e diretor de Empreendedorismo da Fiap, no debate Empreendedorismo, quais os alcances e os limites da Academia?, organizado pelo Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) durante o Encontro Nacional 2017 do Programa Academia.

Outra dificuldade, segundo Nakagawa, é fazer com que o aluno acredite no empreendedorismo. “Embora muitos afirmem acreditar, esse crédito em geral se assemelha a promessas de pessoas que manifestam o desejo de perder peso e levar uma vida saudável, que acabam não se concretizando.”

Para o professor, houve uma evolução da lógica de trabalhar empreendedorismo em sala de aula. Existe uma abordagem tradicional em que os alunos são colocados na sala de aula e se ensina como fazer um plano de negócios. Uma outra abordagem que está sendo seguida hoje, mais iterativa e interativa, é aquela em que o professor é mais um facilitador, um coach.

Nakagawa citou o exemplo da faculdade de engenharia da Universidade de Stanford, nos EUA, que tem em sua porta a frase: “professores abrem portas, mas é você que decide entrar por si mesmo”, o que talvez explique a razão dessa universidade ter tantos professores excelentes comprometidos com o sucesso de seus alunos. Ele lembrou o caso do professor de Engenharia Frederick Terman, que em 1939 decidiu ajudar dois de seus melhores alunos a criar um negócio com um investimento pessoal de US$ 538. Os dois alunos eram Bill Hewlett e David Packard, fundadores da HP, numa época em que a abertura de empresas não era comum. Terman não ajudou a criar apenas a HP, mas todo o Vale do Silício, como a região é chamada atualmente.

O professor do Insper publicou recentemente um artigo em que cita outros professores famosos, entre eles Frank Shallenberger, da escola de negócios de Stanford, que criou um dos primeiros cursos de empreendedorismo do mundo. Um de seus alunos, Phil Knight, decidiu montar uma fábrica de calçados esportivos nos EUA em 1964, quando os produtos disponíveis no mercado eram de baixa qualidade e os melhores produtos eram importados da Alemanha. Assim nasceu a Blue Ribbon, que depois se tornou a Nike. O trabalho de conclusão de curso de Knight era sobre a competição. Em 2006 ele retornou à universidade para doar US$ 105 milhões, dinheiro que foi usado na construção de um prédio para a escola de negócios.

Outro docente, David Cheriton, professor de computação, foi ainda mais longe em 1988, ao orientar dois alunos de doutorado para que eles transformassem sua pesquisa em um novo negócio, no qual investiu US$ 100 mil. Seus alunos eram Larry Page e Sergey Brin e a empresa criada recebeu o nome de Google. Hoje Cheriton tem uma fortuna de US$ 3,6 bilhões, mas continua a trabalhar como professor 10 horas por dia.

Na visão de Nakagawa, “empreendedorismo não é uma ciência, tampouco uma arte. É uma disciplina, é um jeito de você pensar, acreditar e de fazer aquilo. Nós professores que trabalhamos com empreendedorismo abrimos portas, nós fazemos conexões, mas o aluno é que tem que decidir entrar. Para aqueles que querem realmente, você nem precisa forçar a barra.  Meu papel como professor de empreendedorismo é abrir portas”.

Marcelo Nakagawa foi aluno de Guilherme Ary Plonski, professor da FEA-USP e da Escola Politécnica da USP, que também participou do Encontro Nacional de 2017 do Programa Academia. Plonski cumprimentou o ICE pela ideia de construir uma ponte com a Academia e iniciou a sua exposição com uma pergunta: quais são as universidades empreendedoras no Brasil?

A mesma questão é feita pelos estudantes, disse ele, que oferecem uma resposta com o

Índice de Universidades Empreendedoras no Brasil, pesquisa feita no ano passado por entidades estudantis que ouviu quatro mil estudantes universitários em todo o país. O objetivo foi mostrar iniciativas de instituições de ensino superior que mais incentivam o empreendedorismo, dentro e fora da sala de aula.

O trabalho foi realizado pela Confederação Brasileira de Empresas Juniores (Brasil Júnior), Organização Jovem de Liderança no Mundo, rede de bolsistas e ex-bolsistas do Programa Ciência Sem Fronteiras, Enactus Brasil e a Associação dos Estudantes Brasileiros que estão fora do país. O Índice foi construído com base em seis eixos para levantar as boas práticas: cultura empreendedora, atividade de extensão, inovação, infraestrutura, internacionalização e capital financeiro.

A USP foi considerada a universidade mais empreendedora, seguida pelas universidades Estadual de Campinas (Unicamp), Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio), Federal de São Carlos (Ufscar), Federal do Ceará (UFC) e Federal de Minas Gerais (UFC. A classificação das demais universidades pode ser encontrada no site da Brasil Júnior.

Outra pergunta feita por Plonski: que métrica é adequada para verificar se uma universidade é empreendedora?  Há muita discussão sobre esse tema. Uma delas é a Global Entrepreneurial University Metrics Initiative, iniciada em 2015 por universidades do Brasil, China, Estados Unidos, Rússia, Finlândia e Holanda. “Tem de ser uma métrica que não só seja bonita, mas que possa ser operacionalizada”, disse Plonski, “que seja um aprimoramento dos rankings internacionais”. Aqui no Brasil há algumas universidades participando e deverão surgir novidades nas próximas semanas. Teremos ainda um evento em Palo Alto, no mês de junho, para discutir esse assunto”.

 

Muito além da sala de aula

Leandro Pompermaier, professor da PUC-RS, falou sobre quebra de paradigmas no ensino superior, fruto de uma reflexão crítica iniciada em 2014 não só sobre a incubadora e parque tecnológico da universidade, mas sobre a atuação da instituição como um todo, para ver como poderia ser realmente empreendedora com o propósito de transformar a sociedade.

“Começamos com a análise da sala de aula e agora a tendência é fazer uma transformação para que não haja sala de aula. A sala de aula do futuro é a `não sala`. Isso significa que precisamos de um ambiente informal, aberto, em que o professor seja um mediador”, afirmou Pompermaier. No momento em que se faz uma transformação na sala de aula, quebra-se o paradigma do professor.  Passa-se para um ensino baseado em desafios e na interação entre as pessoas. ”Em termos empresariais, empresas como o Google já fizeram essa transformação e a produtividade aumentou.  A dificuldade é quebrar o paradigma do professor”, disse Pompermaier.

A nova geração não gosta da sala de aula porque ela tem muitas regras. Por isso, a PUC-RS criou no ano passado o Espaço Idear, Laboratório Interdisciplinar de Empreendedorismo, que fica centralizado no campus, para trabalhar todas as questões relacionadas ao tema empreendedorismo com uma abordagem multidisciplinar.  “A gente começou a conectar as pessoas. Alunos de informática, engenharia, nutrição para trabalhar juntos no Projeto Desafios, no Espaço Idear, que acontece dentro dos preceitos do MEC. É uma disciplina em formato diferente, na qual os estudantes estão diante de desafios da sociedade que eles precisam resolver de forma multidisciplinar. Os alunos se empolgam com aquilo porque eles estão fazendo na prática protótipos, estão indo para o campo. São eles que fazem a própria aula e definem os seus objetivos”, explicou Pompermaier. Os alunos têm um mediador que ajuda a superar alguma dificuldade no percurso, fornece os materiais necessários e facilita o contato com algum “Phdeus”.

Na Faculdade de Informática, a PUC-RS tem um curso de Engenharia de Software, que foi pensado sem sala de aula. Foi criada a Agência Experimental de Engenharia de Software,  um espaço de desenvolvimento que tem uma interação muito grande com problemas reais, para que eles possam utilizar e construir seu conhecimento com a ajuda da tutoria dos professores.

Essas mudanças começaram a ter impactos nos outros cursos de ciências da computação e sistemas de informação, que são dados nas tradicionais salas de aula. Os alunos desses cursos, então, reivindicam cursos em ambientes abertos. “No lado empreendedor de criar empresas, a gente já não fala de incubadoras, mas de desenvolvimento de negócios, com espaços de coworking, e logo teremos parcerias com uma empresa de tecnologia e uma cafeteria sem atendentes, onde as pessoas vão se servir e pagar com aplicativo”, contou Pompermaier.



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial