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Série Portfólio ICE-BID: Confira os negócios que estão criando soluções para os desafios urbanos

Na segunda matéria da série, apresentamos as iniciativas Pluvi.On e Recicleiros e a importância da interlocução com o setor público para o ganho de escala.

As chuvas que têm assolado o sudeste do Brasil, com graves consequências nas cidades de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, são assunto de destaque na imprensa nacional e internacional. A maioria das vítimas sucumbiu a deslizamentos de terra e à destruição das casas provocados pelas inundações e pela intensa precipitação, que atingiu valores acima da média histórica no mês de fevereiro.

Cenas do tipo são recorrentes no verão e devem continuar acontecendo. Especialistas apontam alterações no clima  decorrentes do aquecimento global como causa mais direta, mas não é a única. Uma combinação de fatores agrava a situação dessas capitais: falta de planejamento urbano, ocupação desordenada e acúmulo de lixo e entulho.

De acordo com levantamento realizado pela Folha de S.Paulo, o gasto do governo federal com obras estruturantes e projetos de contenção de desastres naturais atingiu o menor patamar em onze anos. Menos de um terço dos recursos previstos foi usado em 2019 e o corte em 2020 promete ser ainda maior (de R$ 4,6 bilhões para R$ 2,8 bilhões), segundo informações do jornal.

Por outro lado, cresce o número de soluções inovadoras criadas por empreendedores do chamado ecossistema de impacto que podem prevenir ou mitigar danos relacionados às mudanças climáticas. São iniciativas testadas e bem sucedidas, mas que ainda necessitam de apoio para ganharem escala e atenderem à grande demanda da população.

Eduardo Henrique de Azevedo, especialista em inovação do BID, observa o potencial de alianças entre negócios de impacto e governos para maximizar o impacto de ambos.

“O poder público tem um papel fundamental no apoio a iniciativas que conseguem gerar valor para a sociedade e, nesse momento de crise, é hora de investir em inovação para otimizar sua atuação com menos recursos.” comenta ele.

Na segunda matéria da série “Portfólio ICE-BID”, apresentamos dois negócios apoiados pela parceria entre o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por meio do BID Lab, que impactam positivamente a vida urbana e, por isso, requerem ampliar cada vez mais o diálogo com o poder público. Confira.

 

Recicleiros

A produção de lixo no Brasil vem crescendo a uma taxa cinco vezes maior que a população e 60% dos municípios destinam resíduos para lixões. Em 2019, mais de 3,6 milhões de toneladas de lixo comum e 80,4 mil toneladas de lixo reciclável foram coletados em São Paulo, segundo dados do dados do Sistema de Controle de Resíduos Sólidos Urbanos (Siscor). Em Belo Horizonte, os garis da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) recolhem, por dia, cerca de 2.8 mil toneladas de resíduos ou 400 caminhões repletos (considerando que cada veículo possui capacidade para sete toneladas de lixo). As informações são da prefeitura do município.

Mais de um milhão de catadores no país sobrevivem com renda média de R$ 570 por mês. Apenas 10% deles são formalizados. Ao mesmo tempo, as grandes empresas têm dificuldade de cumprir com as obrigações legais previstas na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Frente a esses desafios, a missão do Recicleiros é colocar em prática os conceitos de sustentabilidade, utilizando a gestão de resíduos como instrumento para gerar inclusão pelo trabalho e renda e benefícios ao meio ambiente. Para isso, a iniciativa combina  capacitação de catadores, qualificação do resíduo de grandes produtores e conformidade regulatória para grandes empresas sujeitas à PNRS para criar negócios sustentáveis no segmento da gestão de resíduos.

“O Cidade+Recicleiros é o nosso programa de coleta seletiva e reciclagem de resíduos. É com ele que oferecemos tecnologia, maquinário, inteligência, capacitação e suporte total para que as cidades possam implementar e gerir seu programa de coleta seletiva de forma eficaz e sustentável. Também é com o programa Cidade+Recicleiros que oferecemos ao setor empresarial, que precisa efetivar a logística reversa de embalagens, valores atrativos por tonelada de material reciclável recuperada, sob a forma de certificados, para que cada empresa esteja em conformidade com Política Nacional de Resíduos Sólidos”, explica Erich Burger Netto, diretor institucional da Recicleiros.

Ele avalia que os recursos captados em 2017 com a Chamada ICE-BID tiveram impacto direto no desempenho da organização, permitindo seu crescimento e a consequente ampliação do impacto gerado pelo negócio. “Crescemos de maneira ordenada, mantivemos qualidade e saúde financeira e chegamos ao patamar planejado naquele momento”, conta.

A Recicleiros prevê que os programas de coleta seletiva e reciclagem devem chegar a mais de um milhão de pessoas entre 2020 e 2021 e, a partir daí, crescer à taxa de novas 500 mil pessoas atendidas por ano, gerando mais de 500 novos postos de trabalho anualmente. “Serão três milhões de pessoas com acesso a canais sustentáveis para destinação de resíduos sólidos urbanos e 1.500 postos de trabalho qualificados para pessoas em situação de vulnerabilidade até o final de 2025 proporcionados diretamente pela atuação da Recicleiros. Adicionalmente, estamos articulando parcerias importantes para sistematização e compartilhamento do conhecimento gerado para que esses números possam ser multiplicados por outras iniciativas no Brasil e fora dele”, comemora o diretor.

“A Chamada ICE-BID nos provocou a refinar nosso planejamento estratégico e financeiro, nos deu meios para executar o plano que tínhamos para aquele momento e fortaleceu nossa rede de relacionamento, tornando possível de diversas maneiras que pudéssemos entregar com mais qualidade e em maior escala nossa missão enquanto organização. Temos convicção de que os recursos captados para executar planejamentos bem feitos são fundamentais para a elevação do impacto socioambiental positivo a que negócios dessa natureza se propõem”, observa.

 

Pluvi.On

Os eventos climáticos extremos causam problemas sociais e econômicos, com perdas de vidas, disseminação de vetores de doenças e sobrecarga de sistemas de saúde pública. No Brasil, 33 milhões de pessoas são impactadas por eventos climáticos extremos todos os anos e as populações vulneráveis são afetadas de forma desproporcional.

A missão da Pluvi.On é salvar vidas e reduzir significativamente as perdas sociais e econômicas causadas por eventos climáticos. Por meio de alertas preventivos e de uma previsão do tempo mais confiável, produzida por meio de uma rede de sensores hiperlocalizados para gerar informação em tempo real sobre inundações e outras situações extremas, o negócio oferece solução tanto para pessoas em situação de risco, quanto para a Defesa Civil e outros órgãos responsáveis. Além disso, os dados coletados ajudam a deixar a previsão do tempo mais inteligente. A inovação tem potencial para contribuir com a melhoria da qualidade de vida nas cidades e com áreas como agricultura, logística, geração de energia, engenharia, entre outras.

Com um hardware 100% nacional, o principal produto da Pluvi.On é uma estação meteorológica, criada pela própria empresa, que funciona a partir da tecnologia de internet das coisas (IoT). O equipamento é mais econômico e prático em relação aos similares importados.

Diogo Tolezano, fundador da Pluvi.On, avalia que o principal avanço do negócio após participar da Chamada ICE-BID em 2018 foi ter iniciado seu primeiro trabalho dentro de uma região de alta vulnerabilidade social na zona leste de São Paulo. Na área atual de cobertura, a Pluvi.On tem um impacto potencial de mais de 100 mil pessoas. O projeto envolve quatro Unidades Básicas de Saúde, três escolas, um hospital, duas unidades da Defesa Civil, duas organizações da sociedade civil e duas prefeituras regionais.

“A Chamada ICE-BID foi um catalisador para iniciarmos o trabalho em cidades e, principalmente, em áreas de alta vulnerabilidade. Foi fundamental tanto pelos recursos disponibilizados, como pela rede incrível de conexões a que pudemos ter acesso. Além disso, ampliamos nossa atuação com empresas de diferentes setores, ganhando mais tração como negócio”, comemora.

Ampliar a atuação para outras comunidades, ao menos mais cinco em São Paulo ainda em 2020, e expandi-la também dentro de alguns setores-chave, como logística, cidades e energia, está nos planos futuros da startup.

De acordo com Eduardo Henrique de Azevedo, especialista em inovação do BID, governos são indutores de escala das inovações de impacto. “Começar com parcerias com regiões específicas ou municípios menores pode ser uma forma de demonstrar os impactos positivos e gerar valor para a expansão das alianças futuramente”, observa.

Há mais de três anos no mercado, a Pluvi.On está tentando sofisticar seu serviço com tecnologia e escala. Para Diogo, ter acesso aos equipamentos públicos é a chave para a expansão da rede de medição, o que só foi possível com o envolvimento da prefeitura local.

 

Portfólio ICE-BID

Entre 2017 e 2018, a parceria entre o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por meio do BID Lab, investiu cerca de R$ 3 milhões para apoiar o desenvolvimento e a estruturação de negócios de impacto no Brasil e fortalecer incubadoras e aceleradoras.

85% desse montante foi investido em 16 negócios de impacto, enquanto o restante foi aportado nas cinco aceleradoras e incubadoras que apoiam esses negócios. Os empreendimentos apoiados atuam nos setores de saúde, educação, cidades, cidadania, tecnologias verdes, serviços financeiros e desenvolvimento rural.

O ICE acompanha o desempenho econômico-financeiro e os indicadores de impacto dos negócios durante os cinco anos de vigência do contrato de empréstimo. Por estarem em estágio inicial, o Instituto também apoia os empreendedores criando conexões com potenciais mentores e investidores.

 



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial