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Série Portfólio ICE-BID: O governo como cliente

Na sexta matéria da série, confira como a VerBem, a Gove e a SmartSíndico têm enfrentado desafios na relação comercial com governos em meio à pandemia de Covid-19.

Business-to-Government ou B2G é o termo usado para definir as transações entre empresas e governos. O modelo tem sido cada vez mais debatido no universo do ecossistema de impacto, seja pela importância do fomento ao setor pelo poder público – diretriz que compõe uma das 15 recomendações da Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto -, seja pela capacidade do setor público, como cliente, de escalar as soluções e inovações ofertadas  pelos negócios de impacto, conectando-as às políticas públicas.

A discussão ganhou espaço, oficialmente, na agenda do poder público no final de 2017, com a criação da Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO) e há casos de transações B2G com negócios de impacto espalhados por prefeituras do país todo.

O modelo, no entanto, impõe alguns desafios. Entre os principais estão a diferença entre os tempos e processos dos dois setores, além de fatores como mudanças de governo que descontinuam contratos e relacionamentos com as empresas.

Na sexta matéria da série “Portfólio ICE-BID”, conheça três negócios apoiados pela parceria entre o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por meio do BID Lab, que têm buscado aprimorar as parcerias com o setor público, sobretudo no atual contexto de pandemia.

VerBem: democratização da saúde oftalmológica

Democratizar a saúde oftalmológica no Brasil e garantir o acesso de todos os brasileiros a consultas e óculos de alta qualidade é a missão da VerBem.

Em seis anos de trajetória, a empresa realizou mais de 100 mil triagens, 47,6 mil consultas e doou quase 56 mil óculos para crianças, adolescentes, adultos e idosos em situação de vulnerabilidade social e econômica de 21 estados brasileiros, além de ter realizado ações em países como Índia, Haiti e Moçambique. A meta é atender a um milhão de pessoas até o final de 2021.

Para possibilitar esse impacto, além de praticar preços acessíveis na comercialização dos produtos, a rede de óticas também doa um óculos a cada peça vendida. Essa política, no entanto, só pode ser implementada após o apoio recebido por meio da chamada ICE-BID. Ralf Toenjes, CEO da VerBem, conta que com o recurso, a empresa também abriu as duas primeiras lojas físicas no estado do Paraná.

“A importância da chamada realizada pela parceria ICE-BID está relacionada à ampliação de nossa estrutura e ao alcance dos resultados esperados, tanto nas vendas, quanto nas doações. Um ano após a abertura das duas primeiras lojas físicas, já pudemos abrir a terceira, além de vermos crescer nosso potencial de impacto com a doação de óculos de qualidade para populações em situação de vulnerabilidade e com a promoção de inovação em tecnologia informacional e social para solucionar problemas de saúde visual de forma escalável e assertiva.” 

Para esse segundo eixo de atuação, a VerBem conta com a parceria da Duke University, que já possibilitou a coleta, análise e tratamento de dados de pelo menos 27 mil pacientes, gerando um banco de informações confiáveis.

“Dessa forma, não apenas tangenciamos o problema, como também dimensionamos e podemos resolver as questões relacionadas à saúde visual dos brasileiros”, observa Ralf.

Desafios em tempos de pandemia

Com a chegada da pandemia do novo coronavírus ao Brasil, que gerou um cenário de crise humanitária, sanitária e econômica, a VerBem se viu impelida a contribuir também com o combate aos efeitos da disseminação da doença no país.

O novo programa implementado pela empresa contempla ações de testagem em massa, doação de equipamentos de proteção individual a profissionais da saúde e pacientes, participação em estudo sobre os impactos da pandemia sobre a juventude, bem como a inauguração de uma nova unidade de negócios com a finalidade de garantir o acesso de empresas e órgãos públicos de todo o país a equipamentos e insumos de proteção.

“A decisão de fazer parte da solução, sobretudo apoiando as pessoas que mais precisam, foi essencial para seguirmos atuando alinhados aos valores que nos levaram a fundar a VerBem”, afirma o CEO.

Impacto nas políticas públicas

Com a ampliação do acesso à saúde oftalmológica, a VerBem tem impactado positivamente a eficiência do serviço público, tanto na área da saúde, com a desoneração do sistema público de saúde brasileiro, o SUS, quanto em setores como educação, com o aumento do rendimento escolar e a redução da evasão.

“Em outubro de 2018, realizamos a maior ação oftalmológica do Brasil. Em oito dias, atendemos mais de 5,5 mil pacientes da região de Barretos, no interior do estado de São Paulo, que aguardavam há mais de dois anos por uma consulta oftalmológica na fila do Sistema Único de Saúde”, comemora Ralf.

Com a suspensão de consultas e procedimentos eletivos em razão do distanciamento social necessário para frear a pandemia, no segundo semestre, estima-se um aumento da fila por atendimento oftalmológico no SUS e a empresa já está se preparando para ajudar o governo a dar conta dessa demanda.

“Nossa decisão de atuar junto a governos na recuperação pós-pandemia tem em vista a escalabilidade dos nossos serviços e também maior eficiência e sustentabilidade financeira e operacional dos recursos públicos”, observa Ralf.

SmartSíndico: descomplicar e inovar na administração condominial

A missão da SmartSíndico é produzir e disseminar conhecimentos na área de administração de condomínios HIS (CDHU, COHAB, Minha Casa Minha Vida), que facilitem a gestão e as relações sociais, por meio do uso de ferramentas inovadoras, funcionais, transparentes e participativas. 

Cássio Thut, CEO e fundador da empresa, afirma que a startup oferece soluções escaláveis para problemas sociais enfrentados pela população de baixa renda. “Nosso objetivo é liderar e inovar a gestão de condomínios HIS via Web e Apps, disseminando as melhores práticas, descomplicando-as e revestindo-as da necessária legalidade e colaborando, assim, com o planejamento de novas políticas habitacionais pela administração pública.”

O financiamento recebido por meio da chamada ICE-BID permitiu à SmartSíndico implementar mais rapidamente novas e importantes funcionalidades em seu aplicativo. “A chamada foi muito importante para a estruturação do negócio enquanto empresa de impacto social, gerando grande visibilidade no ecossistema de startups de impacto social e também fora dele”, conta Cássio.

Setor público como cliente: desafios e oportunidades

Para o CEO, o grande benefício de ter o governo como cliente é, sem dúvida, o ganho de escala. Mas os desafios são muitos e ele enumera alguns: mudança constante de direção nas empresas públicas contratantes, principalmente em períodos eleitorais; convencimento da direção dos órgãos contratantes acerca da presença de requisitos legais para contratação por inexigibilidade de licitação; resistência de alguns servidores desses órgãos à implementação de algo novo e com novas tecnologias nunca empregadas na área.

Como boa parte das empresas e organizações, frente ao contexto de pandemia, a SmartSíndico teve que se adaptar ao modo de trabalho home office. Cássio conta que a startup tem aproveitado para investir no aperfeiçoamento de ferramentas que contribuem para o isolamento social dentro dos condomínios.

“Temos grandes perspectivas e expectativas para o futuro próximo, uma vez que o aplicativo está muito mais completo e estruturado, se comparado à época da chamada [ICE-BID]. Também estamos desenvolvendo um projeto no aplicativo para a bancarização dos condomínios não regularizados e que, consequentemente, não possuem CNPJ, e acreditamos que esse projeto irá tracionar nossas vendas, inclusive no mercado privado”, conta.

Gove: políticas públicas baseadas em evidências

“Nós existimos para transformar o setor público. Trabalhamos para que todas as decisões de governos sejam suportadas por dados e tecnologia”, conta Ricardo Ramos, cofundador da Gove

A missão da empresa é consolidar, organizar e disponibilizar dados e informações necessárias para que os governos tomem as melhores decisões, impactando positivamente a vida de milhões de pessoas.

O empreendedor conta que o recurso proveniente da chamada ICE-BID permitiu que a empresa focasse seus esforços no desenvolvimento de seu produto: plataforma que viabiliza a melhoria da eficiência da administração pública.

“A chamada [ICE-BID] foi importante para que, em 2019, pudéssemos realizar uma transformação na organização, que viabilizou a nossa evolução e nos permitiu chegar melhor a 2020.”

Covid-19 acelerou mudanças esperadas

Para a Gove, a principal mudança gerada pela pandemia foi a adequação do negócio à necessidade do distanciamento social. Ricardo conta que as mudanças já faziam parte dos planos da empresa, mas tiveram que ser aceleradas para o modo remoto de trabalho

“Essa situação foi positiva para a Gove, pois acelerou a aceitação das administrações municipais à adesão de novas tecnologias, o que favoreceu nosso produto. Temos colhido feedbacks positivos das prefeituras sobre a forma como nos adaptamos e por não termos gerado nenhuma ruptura no trabalho”, comemora o cofundador da empresa.

O trabalho da Gove com as finanças municipais se apoia em identificar e implementar melhorias na arrecadação e na otimização de despesas. Em um cenário como o atual, há limitações, principalmente em relação às oportunidades de aumento de arrecadação, já que toda população também está sofrendo os efeitos da crise econômica. Já no âmbito da otimização de despesas, o maior desafio é o aumento significativo de despesas com saúde, por exemplo.

Ainda assim, Ricardo observa que a crise indicou algumas oportunidades de incremento nas receitas devido a novos repasses oferecidos por estados e União, além de novas oportunidades de redução de despesas, que podem e devem ser consideradas pelos gestores.

“A Gove vem atuando e apoiando os municípios a obter resultados nessas duas frentes, gerando conhecimento para decisões importantes que ajudem o município a enfrentar e minimizar os impactos da crise”, conta Ricardo.

Sobre os desafios na relação comercial com o poder público, o empreendedor afirma que a empresa tem aprendido  bastante desde o fim de 2018. “Atualmente, temos uma ‘máquina de vendas’ adequada ao mercado B2G, levando em conta suas especificidades. Uma boa amostra disso é que mesmo no atual cenário de pandemia, nós realizamos novas vendas para municípios.”

Novos gestores, novos desafios e oportunidades

“A pandemia agravou a situação financeira dos municípios, o que aumenta a necessidade da melhoria de eficiência das administrações municipais. Nesse contexto, estamos nos preparando para começar 2021 estruturados para obter esse crescimento de forma sustentável.”

Ricardo projeta para 2021 uma oportunidade de crescimento com o apoio a novas gestões municipais, que vão precisar de informação de qualidade e boas estratégias no cenário pós-pandemia.



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial