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Quarta edição do Encontro Nacional da Rede de Professores do Programa Academia ICE integra celebração pelos 20 anos do Instituto

Professores , associados, investidores e parceiros refletem juntos sobre  novas fronteiras da filantropia e o futuro do ecossistema de impacto no Brasil.

O mês de maio no ICE foi marcado pela realização do 4o Encontro Nacional da Rede de Professores do Programa Academia. Com três dias de programação (08 a 10/05), o evento aconteceu em São Paulo (SP) e reuniu mais de 50 docentes de 36 Instituições de Ensino Superior (IES) públicas e privadas das cinco regiões do país para refletir sobre novas fronteiras para o impacto com reflexões sobre filantropia e investimento social privado.

Este ano, por ocasião do aniversário de 20 anos do ICE, a abertura do Encontro reuniu também empreendedores e investidores de impacto, representantes de institutos e fundações associados ao GIFE e outros interessados no fortalecimento da agenda de impacto no Brasil.

“Entendemos fronteiras muito mais como pontes do que muros. Queremos construir e mudar modelos mentais criando pontes com outros ecossistemas”, salientou Célia Cruz, diretora-executiva do ICE.

O painel de abertura do Encontro contou com a presença de Lester Salamon, professor na Universidade Johns Hopkins e diretor do Centro de Estudos da Sociedade Civil no Instituto Johns Hopkins para Estudos Políticos, e Ricardo Abramovay, economista e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP).

Big Bang da Filantropia

Pesquisas apontam que a filantropia mundial é responsável por apenas 14% do financiamento do campo socioambiental. Metade da sustentabilidade das ações é promovida por meio da comercialização de produtos e serviços pelas organizações da sociedade civil, enquanto 35% é subsidiada pelo poder público.

“A filantropia não contribui como poderia para as finanças sociais. Estamos falando de 280 trilhões de dólares em ativos, enquanto filantropos  mobilizam 228 bilhões de dólares ao ano, nem meio trilhão. O setor precisa se reinventar, quebrar paradigmas, conceber uma nova forma de pensar. Temos que ampliar o conceito de filantropia”, alertou Lester.

Autor de centenas de artigos e cerca de 20 livros, o estudioso compartilhou com o público suas reflexões acerca do que considera ser uma revolução nas fronteiras da filantropia e do investimento social privado, com novos modelos, instrumentos e atores que ampliam o fluxo de capital para impacto social e ambiental.

A solução é o que ele chama de Big Bang da filantropia, que explorou mais recentemente no livro New Frontiers of Philanthropy: A Guide to the New Tools and Actors Reshaping Global Philanthropy and Social Investing (Novas Fronteiras da Filantropia: Um Guia para as Novas Ferramentas e Atores Remodelando a Filantropia Global e o Investimento Social, em tradução livre).

Quatro tendências orientam esse movimento de ‘sair da caixa’ da filantropia: ir além da doação diversificando os instrumentos financeiros; ir além das grandes fortunas utilizando recursos resgatados de ações contra a corrupção ou advindos da privatização de empresas públicas; ir além das fundações envolvendo, por exemplo, agregadores de capital, mercados secundários e negócios de impacto; ir além do dinheiro com mentoria, capacitação e outros tipos de apoio e fomento.

Filantropia e economia de mãos dadas

Para o economista Ricardo Abramovay, o setor empresarial é parte da solução dos problemas do mundo, mas precisa ter atenção com o alinhamento entre a filantropia e a esfera econômica. “Não basta realizar ações [comerciais] para ampliar o consumo na ‘base pirâmide’. Por exemplo, vender produtos que agravem a obesidade. Se a gente não conseguir conceber e elaborar as duas coisas juntas e tivermos a capacidade de fazer com que as populações periféricas e negras sejam protagonistas do desenvolvimento e não consumidoras, não seremos bem sucedidos nesse processo de transição”, alerta.

E salientou a urgência por uma economia regenerativa e a larga insuficiência do que tem sido realizado por todos os setores da sociedade nessa direção. Para ele, tanto do ponto de vista das novas fronteiras da filantropia, quanto da nova sociologia econômica, o convite é para que pensemos a economia a partir da sociedade, da política e da cultura. “A economia não é uma esfera autônoma do conjunto da sociedade”, observou.

Lições de casa

A um público majoritariamente composto por docentes universitários de todo o país, Lester afirmou que o papel da academia é de grande responsabilidade no que se refere ao seu potencial de contribuição para guiar a filantropia na direção de suas novas fronteiras. “O campo acadêmico tem real responsabilidade na difusão das mudanças, do conceito e do grande potencial das novas fronteiras da filantropia.”

Ricardo, por sua vez, destacou o elemento da inovação. “Grandes empresas estão cada vez menos inovadoras. Se o mundo quiser avançar em inovação, esta tem que partir das periferias, onde temos uma juventude que possui uma capacidade incrível de fazer ciência. As comunidades acadêmicas que estudam inovação tecnológica não tem relação com as que estudam desigualdades e pobreza. É preciso estimular esse vínculo para torná-lo política pública.”

Na sua avaliação, o setor do investimento social privado precisa apoios os movimentos da sociedade civil organizada. “Não existe investimento social privado se não existir sociedade civil forte. É preciso que a filantropia deixe de ignorar o conjunto das organizações que já possuem uma trajetória consagrada na defesa dos direitos humanos e do meio ambiente”, defendeu.

20 anos de ICE traz reflexões para investidores

Voltando-se depois especialmente aos investidores presentes na celebração pelos 20 anos do ICE, na noite do dia 08 de maio, o professor Lester fez um chamamento à diversificação em seus investimentos.

“Temos um novo paradigma emergindo. Estamos falando de novas formas de mobilizar recursos, com foco não apenas em organizações da sociedade civil, mas também em negócios sociais que podem oferecer retorno social e financeiro de forma objetiva. Temos novos atores e modelos mentais e novas tecnologias disponíveis. Estamos em uma nova arena econômica. Um tempo para novas parcerias, habilidades e propósitos para boas ações”, ressaltou.

Na ocasião, Renata Nascimento, uma das fundadoras e atual diretora-presidente do ICE, anunciou a permanência do ICE na agenda de fortalecimento do ecossistema de Investimentos e Negócios de Impacto até 2024. “Começamos a atuar nesse campo em 2012. Avaliando nossas contribuições até aqui e as frentes onde podemos todavia colaborar, decidimos manter o foco estratégico para além do previsto inicialmente, que era 2020.” E concluiu convidando os presentes para seguir  engajados, disseminando agenda dos investimentos e negócios de impacto.

A noite de celebração contemplou ainda o anúncio dos finalistas da quinta edição do Prêmio ICE de Investimentos e Negócios de Impacto. Os estudantes premiados puderam apresentar seus trabalhos. “É uma sensação de dever cumprido poder colaborar com um campo que está em expansão e apresentar resultados que podem ser incorporados no ecossistema a fim de fortalecê-lo”, afirmou Erica Siqueira, primeira colocada na categoria mestrado.

Um encontro feito de muita troca e jornadas

A programação do Encontro Nacional da Rede de Professores do Programa Academia ICE seguiu nos dias 9 e 10 de maio com muitos momentos de interação e troca de experiências entre os professores membros da Rede e também com atividades de caráter formativo.

Uma dessas sessões discutiu justamente o conceito de Negócios de Impacto. Na ocasião, Diogo Quitério, gestor de programas do ICE, explicou ao grupo que discutir o conceito e as fronteiras dos Investimentos e Negócios de Impacto é algo caro ao ICE e à Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto porque ajuda a inspirar e a mover todo o ecossistema. No entanto, há o entendimento de que esse conceito não dá conta de abarcar todos os negócios com os quais a instituição vem se deparando ao longo dos últimos anos.

“Nosso objetivo, portanto, não é erguer um muro e trabalhar só com quem está dentro, mas trazer mais pessoas alinhadas a essa narrativa e entender quando estamos juntos e quando não para que continuemos atuando para o bem comum do país”, observou.

O papel e o potencial do poder público no ecossistema de de impacto no Brasil foi discutido na sessão “Inovação e Escala: papel do governo”, com ênfase nos desafios e oportunidades para empreender para o setor público e com isso gerar transformações.

Já a sessão “Escolas de Impacto”, reuniu as experiências de universidades brasileiras com o Commons (programa de desenvolvimento profissional da Ashoka U) e do  Tecnológico Monterrey (México), primeira instituição na América Latina a receber a designação de Changemaker Campus (Universidade Transformadora em tradução livre).

No último dia, duas oficinas mobilizaram os professores: Avaliação de Impacto, em colaboração com a Move Social, e Método do Caso de Ensino, facilitada pela professora Isabela Baleeiro Curado (FGV/EASP). A proposta era  fortalecer as capacidades técnicas dos docentes para atuar em projetos de avaliação de impacto de negócios socioambientais e desenvolver caso de ensino que possam ser usados em sala de aula e na formação de profissionais do campo de impacto.

A Rede

A Rede de Professores do Programa Academia ICE é formada por docentes e pesquisadores de todo Brasil, que têm como principal interesse produzir e aplicar conhecimento acerca de Empreendedorismo Social, Investimentos e Negócios de Impacto e Inovação Social dentro e fora de sala de aula.  Atualmente mobiliza mais de 80 educadores de quase 50 IES de 19 estados, nas cinco regiões brasileiras. Saiba mais sobre o Programa e a Rede.



ICE – Instituto de Cidadania Empresarial